38.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Mas é claro que para a atuação do governo é necessária a existência de um poder forte e neste momento esse poder e autoridade só as forças armadas o podem dar. Sem a satisfação desta condição, o quinto governo provisório não funcionará e também não funcionará qualquer outro governo, chamem-lhe provisório ou de salvação nacional, tenha como primeiro-ministro quem tiver. Chegou o momento em que os revolucionários, estejam onde estiverem, têm de assumir as suas responsabilidades perante o povo e as classes trabalhadoras do nosso país. A onda de agitação e violência [38] que grassa no país tem de acabar!


[38]

Assim estão cheias as costas oceânicas. Isto, do seu lado líquido, é evidente. No seu lado sólido, sobre rochedos e areias, ou seja, sobre as rochas muito grandes e as rochas minúsculas, as costas oceânicas estão cheias de primatas revestidos a cloropreno, carregando poliuretano revestido a fibra de vidro, ora debaixo das asas, ora debaixo dos pés.

Aproximam-se das costas, as ondas terríveis, quando a superfície esquece o temor aos mares que dão cor ao planeta, e acredita reinar sobre eles. São um exército de vingança. Aproximam-se das costas, os primatas, quando o coração pulsa apaixonado pelo rugido senhorial das ondas menos plácidas. São uma espécie estranha, toureiros que abandonaram a arena mas conservam a vontade de medir a mortalidade contra algo digno e insuperável que tenha nascido nos fornos da natureza.

Por norma, a onda quando chega diz-se que varre. Não esta. A força que a sua atitude inspira vem devoradora, assassina, e até os caranguejos a temem. Nem as alforrecas, súbditas dedicadas, lhe escapam. Como ao touro, parece-lhes que o mundo está pintado de vermelho, já não conhecem protegido de malfeitor, e arriscam cuspir para fora dos mares de sal corpos e mais corpos de guelras asfixiadas. O ódio nem permite chorar a sua perda, já não passam de pequenos acidentes, o mísero preço a pagar por uma qualquer justiça importantíssima. As afrontas devem-se todas saldar com miséria e medo.


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