37.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Os patriotas, os progressistas, os democratas, devem demonstrar se de facto isto é um governo que tem a sua confiança ou não é um governo que tenha a sua confiança. Eu devo ainda dizer mais uma coisa. Este governo não é um governo de carreiristas, nem de seguidistas, nem oportunistas, nem homens que queiram tirar partido [37] de estarem no governo. É um governo de homens que se sacrificam.
[37]
Nenhum. Em toda aquela aldeia, desde a cova em que o rio se instalava até à colina cujas copas mais leves tinham o gozo de ser as últimas a arranhar a cor do céu antes do escuro desabar, nenhum homem tirava, senão inteiro. Não se pense que tal contribuiu para a elevação moral e inteligética daquele povo. Isso não. De modo algum. Como qualquer outro, o feito instalou-se de maneira a produzir os dogmas e os tabus de que se fazem todas as sociedades. Por isto, não são de estranhar os rumores que nos chegam dos viajantes cujos passos errantes levaram até esta terra, afirmando ter testemunhado tão sublime etnografia na qual nem um vaso lascado nem uma parede rachada se podem encontrar, porque debaixo do sorriso destes indígenas vive uma violência sem freio a qual reduz ao pó da terra tudo aquilo cuja perfeição sofreu o mínimo revés, segrega até ao átomo a quantidade que perdeu a qualidade que a fizera íntegra. Dos aborígenes desta terra, sabe-se que não há um só que ocupe as orelhas com anéis, pois furar os lobos é convite ao apedrejamento letal, e só se permitem sorrir os que conservam todos os esmaltes na gengiva apropriada. Daí que das prateleiras dos seus supermercados, os clientes tirem apenas o que for inteiro, e do que nelas houver partido farão escarcéu e acusação e exijam penitência aos mercadores de produto sujo.