36.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Os patriotas, os progressistas, os democratas, devem demonstrar se de facto isto  [36] é um governo que tem a sua confiança ou não é um governo que tenha a sua confiança. Eu devo ainda dizer mais uma coisa. Este governo não é um governo de carreiristas, nem de seguidistas, nem oportunistas, nem homens que queiram tirar partido de estarem no governo. É um governo de homens que se sacrificam.



[36]

Este dever sempre acompanhou o projeto da civilização. É que contrariamente às sociedades naturais, as que vivem em plena comunhão com a selva, as que derivam dela e lhe conservam os aspetos até na designação, em que impera o músculo sobre o senso, isto é, em que uma porrada bem mandada tem o vigor de um argumento sublime, as civilizações há muito descobriram que a disposição natural para o debate representa perigos declarados à indumentária bem lavada, ou à bela escultura de uma juba. Como, ao civilizar-se, os povos tendam a preservar os colarinhos bem passados, vemos que lhes surge também, distribuída por igual, a fortunada ideia de combater com os sons articulados que podem desesperar uma alma, ao invés das danças gestuadas que podem rebentar um lábio. Esta, sim, a principal diferença entre os povos civis e os selváticos, os segundos debatem-se sujando por fora, os primeiros, porcalhando por dentro. Surge por isto a demonstração. É, disseram uns que tinham os sons mais letais, o belo triunfo da razão exclusivamente humana sobre as faculdades que se partilham com as bestas, o medo, a fome. A demonstração é, entre os civilizados, um modo que permite ao vencedor ganhar, e ao perdedor vencer ainda: jogado no chão, o vencido está decididamente acima das outras bestas. Sabemos que a demonstração existia já no mais antigo dos palácios egípcios, aonde se dirigiam especialistas para aconselhar sobre o proceder quanto a dilemas. Uma demonstração conhecida que faziam: transformar um aparente pauzinho numa aparente serpentina. Entre os primitivos, em poucos segundos a moca teria empurrado ambos para um passado sem memória; mas entre os civilizados a força deste argumento ainda suscita emoções volvidos alguns milénios decorridos dos primeiros boatos da sua demonstração.


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