34.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Eu devo aqui afirmar que vós hoje tendes um governo de grandes patriotas, de grandes lutadores, de autênticos revolucionários, um governo coeso como nunca tivemos nenhum depois do vinte e cinco de abril. É um governo sem compromissos partidários, o que não quer dizer que aqueles homens sejam apolíticos, não, a política deles é eminentemente nacional e revolucionária. Eu nunca me senti tão ligado a um governo como este e sobre este governo empenho toda a minha honra. Dizem-nos que este governo tem pouca credibilidade, tem muito pouca base de apoio, tem uma base de apoio restrita [34].


[34]

Por cima, a roda estreita de um uniciclo ou duas peúgas recheadas de pé. A arte dos acrobatas eleva-se tanto pela vertical como pelo risco. Sobre um suporte amplo, sobre um plano, a acrobacia deixa de o ser, reconfigura-se em simples deambular. As pessoas exclamam sem surpresa, apontam os dedos e insultam a estupidez de um par de idiotas que caminham com um pau comprido na sua transversal. Retire-se quase todo o apoio, deixe-se apenas um traço entre o parvo e o abismo, e o heroísmo transpira em todas as cores. Heroísmo e arte, ou seja, o balanço temeroso num mundo à beira de um letal ataque de soluços. A atenção dos primatas não consegue resistir a tais demonstrações. Reúnam-se duas dúzias de macacos num círculo: a norte, os instrumentos que levam a vida em troco de suor; a sul, o trapezista: os olhos não largarão o combate entre o parvo e a promessa da queda. Entretanto, as barrigas queixar-se-ão mas só serão atendidas quando já for tarde e metade das bananas tiver apodrecido. A distração dos primatas não consegue resistir ao caminho sobre apoio restrito.


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