33.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Na fase intermédia de transição, como aliados da vanguarda constituída pelos trabalhadores e pelo movimento das forças armadas, terão um papel importante a desempenhar na construção da nova sociedade. Assim o queiram compreender. É perante este panorama que o quinto governo provisório foi formado e entrou em funções. E foi perante um golpe de baixa política, o documento dos nove, que iniciou a sua ação. Eu devo dizer que chamo a isto um golpe de baixa política porque ele foi metido, esse documento, precisamente nas vésperas [33] do novo governo tomar posse, para evitar que o governo tomasse posse. Não é que não deva haver liberdade de discussão e de crítica. Toda essa liberdade eu sou o primeiro defensor dela. A crítica e a autocrítica devem-se exercer amplamente. Mas, agora, meter documentos com determinadas finalidades quando o país está na crise em que se encontra, isso é que é baixa política. Referi-me à ação do Governo, à ação que, até agora, se pode pautar exemplar, pois apesar do mar encapelado em que se tem que mover, trabalha entusiasticamente e cheio de fervor patriótico e no sentido de cumprir honradamente a missão em que foi investido por sua excelência o presidente da república.


[33]

Levado pela ambulância, Rosnaldo Canino deu entrada no hospital nessa mesma noite. Apesar do movimento, as filas de espera e até da sensação inexplicável de aborrecimento, só foi ignorado pelos funcionários por três pares de horas. Quando o primeiro enfermeiro lhe colocou uma pulseira colorida no pulso, Rosnaldo ainda massajava a zona dolorida. E foi no curto intervalo de sete horas que um médico o atendeu. Fez um ar incrédulo, levantou, disse não poder acreditar e abandonou o cliente por instantes.

Voltou praguejando algo contra o enfermeiro que não o tinha chamado de imediato, com dois outros médicos no encalço fazendo coro com as suas palavras, enquanto desculpavam o infeliz assistente cuja formação não permitia distinguir factos extraordinários de episódios telenovelescos. Os três doutores observavam o Canino com todos os olhos, em particular na zona muito afagada, e brilhavam excitados por ali verem nomenclaturas desconhecidas nos compêndios vendáveis. Onde Rosnaldo só conhecia dor, eles haviam descoberto matéria extraível, o que não podia surpreender ninguém dada a raridade que é uma vítima saber dar o devido valor ao que a assola.

O primeiro médico disse: É incrível! Atualizaremos todos os manuais de anatomia, e acrescentou: Teremos que o dissecar com a devida atenção já que não podemos contar com a existência de casos redundantes.

O segundo médico concordou e pensando alto: De facto temos margem de erro nula numa circunstância tão rara. E parece que imaginou que a circunstância poderia ter origem genética, o que daria folga aceitável para conviver com o terrível e inultrapassável inimigo da ciência médica, a negligência. Pois então perguntou: Por acaso não terá um gémeo ou familiar próximo?

O terceiro médico brincava com o bisturi dentro do bolso, com ganas de começar a trinchar, e suspirou: Felizmente tenho o bloco operatório já pronto. Perante a estranha reação dos outros explicou-se: Para outro caso, mas esse terá que esperar. Não precisou de mais por ser óbvio que navegar a fronteira da ciência da cura é maior benefício para a humanidade que o salvamento de um tipinho insonso.

No seu banco silencioso, o Canino amaldiçoava a estranha biologia de que sofria, e prometia a si mesmo que largaria todas as fés se sobrevivesse ao périplo, já que só a estrambólica e estapafurda lengalenga dos naturalistas poderia explicar que um primata nascesse com um par de vésperas, ainda por cima ali, naquele lugar tão ingrato e pouco higiénico.

Quando o bisturi pintava o primeiro fio de sangue, um enfermeiro lembrava o cirurgião: Sim é deveras interessante, mas por favor não se esqueça de remover o documento.

Do outro lado da freguesia, os agentes que haviam sido chamados a responder ao caso deixam que Casimildia Rupestre saísse da esquadra em liberdade. Com isto cumpriam exemplarmente com os seus dois mandatos profissionais: preencher o auto da estranha agressão ao popular de nome Canino pela companheira de residência, que numa disputa doméstica o havia penetrado com um artigo de wikipedia impresso em três folhas de tamanho a-quatro em órgão desconhecido; e executar a mui distinta e honorabilíssima pedagogia de ofertar uma segunda ou quinta oportunidade aos que pecam em casa própria.


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