32.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Quantos pequenos comerciantes, industriais e agricultores não foram arruinados e forçados a meterem-se ao caminho da emigração? As perspetivas que se abrem hoje à pequena e a sectores da média burguesia são outras: a de, por uma via pacífica, ascenderem progressivamente à sociedade sem classes, na qual gozarão exatamente dos mesmos direitos [32], que o resto da população.
[32]
Dois vírgula quarenta e três, de acordo com os relatórios mais recentes.
Um deles, por inteiro. Tem sido observado por vários especialistas que não
se encontra entre a populaça uma só mulher solteira que admita não ter ganas de
gozar com esse direito, mas quando confrontada com a sóbria memória dos
movimentos de direito cívico que batalharam com suor e lágrima para que tal
direito fosse encaixado nas listas que a constituição inclui para esse tipo de
função espiritual-legalista... O escárnio parece afogar toda e qualquer
tentativa de sinceridade quando tal direito é enunciado, e nem os juristas que
são pagos para o defender são capazes de o fazer sem soltar três gargalhadas
antes e depois de qualquer louvor que lhe cantem pedagogicamente.
Um outro pelos nove décimos. Este, que a vasta maioria da cidadania se
esforça por respeitar, ainda assim produz os efeitos jocosos que a fraqueza
instila nos rufias primários. Não é certo que o gozo lhe carcoma os noventa
centésimos, com alguns estudos a apontar uma margem de erro de meia
percentagem, embora seja evidente que a gozação só não o cubra por completo por
se ver melindrada com a contradição absoluta entre o cinismo por esse direito e
o amor por um dos aspetos mais fundamentais da tradição, o qual respeita ao
modo de proceder perante uma passadeira, que é indiscutível virtude entre o
povo como já sabemos.
De resto, o poço ameaça ainda pisar figurativamente os cinquenta e três de
cem partes dessoutro direito que, não sendo dos mais relevantes no que toca à
higiene pública, foi uma das principais conquistas da revolta dos sabonetes,
sem a qual não estaríamos aqui, hoje. Que a nossa sociedade tenha desaprendido
a amar esta vitória, que já não encontre dentro de si a vontade para a viver em
plenitude, que só se lembre de a celebrar na superfície do ritual de
aniversário da revolta, que não possa conceber que a vida seria uma tragédia
selvagem sem ela, são tudo preocupações e ansiedades que certamente os nossos
avós teriam se nos pudessem ver. Felizmente, já só cá estamos nós.
Este artigo foi escrito de acordo com a Moral Vigente. As opiniões e argumentos nele expresso são unicamente as dos autores, da sua sociedade e do Governo que lhes determina o quotidiano.