30.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

A questão, repito-o, não é esta. A questão é mais profunda, só se pode pôr no campo da luta de classes, no campo da opção de classe. Pondo as coisas claramente, há quem pertencendo originariamente à burguesia, esteja disposto a pôr em causa todos os seus privilégios e os privilégios da classe a que pertence e pôr-se ao serviço dos interesses das classes trabalhadoras, e há aqueles que embora reclamando-se do marxismo, das classes trabalhadoras e do socialismo só o fazem para não perderem os seus privilégios [30] e para salvarem os privilégios da classe e das camadas sociais a que pertencem.


[30]

Os que perderam os privilégios, são quem mais figura nos livros da história. Mas protagonizam-nos do modo mais humilhante que se pode imaginar. Ao passo que antes, antes de os perderem, quando os privilégios ainda eram entre si, passeavam pelas páginas marcados no negro férreo da tinta marcada; após a perda desses privilégios o seu nome é encontrado em todas as fibras brancas e intocadas do papel. Sim, ali estão eles, fantasmas obrigados a sentir a sua presença sem a poder ver, forçados a partilhar o espaço em que se celebram os que conservam o privilégio... Pior, forçados a partilhar o espaço em que se celebram os que adquiriram o privilégio. Como um avô, que vê a atenção dos filhos abandoná-lo para se fixar nos netos. Avós rancorosos, eis o que são todos aqueles que já perderam os seus privilégios.


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