29.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

A questão coloca-se entre os que são socialistas nos atos e os que são socialistas nas palavras. A questão não é pois de oposição entre vascogonçalves e fulano ou vascogonçalves e sicrano. Não se trata, pois de um problema de individualidades [29].


[29]

Assim é, desde o ciclo mais elementar da edição. Se a professora emite a individualidade, não é ainda possível que se trate de um problema. Dirão: é problema tudo o que encaramos como tal! Ah, estupenda poesia, mas fraca lógica, convenhamos. Basta ao mais simples dos idiotas usar o expediente dos cientistas para o comprovar – experimente-se. Há uma hipótese? Pois bem, arregaçai as mangas e sujai os braços. A verdade é a testemunha capaz de acusar o homicídio de muito boas vontades.

Experimentemos, então. Sete, por exemplo. A professora abre a boca e quando a melodia lhe escapa produz este som: Sete. Fecha a matraca e não solta nada mais. Houvesse uma outra coisa, um qualquer som de mais, fosse a sorte de uma multitude, da mais mísera multitude, da multitude mais barata, aquela que é tão banal que com ela até os pobres constroem futuros, o par, houvesse até esse pouquíssimo e o problema seria uma semente cheia de potência. Mas nada mais houve, apenas aquilo, Sete, a individualidade. Poderá ser maior? Menor? Igual ou diferente? Divisor ou dividido, expoente ou raiz? Poderá ao menos ser incógnita, ser a parte razoável e conhecida de um vazio no saber? Será o próprio som algo diverso do que dele se poderia pretender? Será que não é mais que um Tê?

Reparaste? Reparaste que em cada pedaço de operação, há uma sombra que é convocada ao mundo? Reparaste que ante a mera sugestão, já algo difuso e oblíquo acompanha o Sete? Os problemas, sabe-se desde o mais elementar ensino, exigem no mínimo uma companhia. Daí não haverem loucos naufragados em ilhas, nem eremitas insanos. A inteligência humana sempre soube o caminho para evadir problemas. Basta reduzir-se em individualidades. Mas um terrível inimigo mantém a espécie curvada no lodaçal da multitude. Amaldiçoados de amor, os primatas insistem em viver povoados de problemas.


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