28.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

É bom que todos estejam conscientes desta questão e façam um esforço no sentido de verem para além das campanhas de intoxicação e de ataque que ultimamente têm visado algumas organizações e figuras entre as quais me encontro. A questão é entre aqueles que querem exercer o poder no sentido [28] de ajudarem o povo a tomar o seu destino nas suas próprias mãos e aqueles que pretendendo o poder em nome do povo querem perpetuar a sua exploração.


[28]

Raras vezes os monarcas, as elites, toda a espécie de poderosos, foi capaz de verdadeiramente encantar a humanidade. São os poetas quem, depois da morte dos seus senhores, lhes embeleza a lápide para que uma memória simpática possa invadir o espaço que antes estivera ocupado por uma observação evidente. Essa observação, é que estes poderosos são todos e sem exceção de igual modo aborrecidos. São gente previsível, quotidiana, que provocam uma excitação tão absolutamente nula que o povo pode dar por si a pensar que no fundo não se tratam de pessoas diferentes das que cobram a despesa num supermercado, e que podia bem ser uma dessas pessoas a mandar nisto tudo. E terão razão ao afirmar isso, e muito se tem feito para atingir esses tratos, distribuindo o poder maior pela cidadania afastada das carreiras políticas, embora sejam estes cidadãos muitas vezes gente dos palcos e dos ecrãs e até ver raras e nenhumas vezes gente das caixas de supermercado. E, no entanto, que diferenças a assinalar? Zero. Tão desenxabidos como os que substituíram. Aliás, esta tragédia ocupa a própria ficção aquase na sua totalidade. Raro é encontrar um poderoso que não seja assim, desejoso de exercer o poder num sentido qualquer. Por exemplo, a Rainha de Copas. Os únicos regentes que foram descobertos a exercer o poder sem sentido, são igualmente os únicos que alguma vez mereceram o direito de governar sobre os mortais. Uma imensa dádiva oferecem aos seus súbditos que, incapazes de aceitar que alguém manobre o poder sem destino, ocupam serões inteiros discutindo quais as genuínas motivações deste e daquele. 

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