27.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Atravessamos, pois uma crise grave: mas já atravessámos outras. As várias crises por que foi passando o processo revolucionário e que tiveram no vinte e oito de setembro e no onze de março a sua expressão mais aguda, foram acabando com a conjuntura favorável que existia no dia vinte e cinco de abril de setenta e quatro. Ao longo do tempo as posições foram-se tornando mais claras, os campos de luta mais abertos, as opções mais urgentes e mais difíceis. E a revolução entrou no seu momento decisivo quando, depois de se ter definido como socialista, pôs claramente a questão central de qualquer revolução socialista – a do acesso progressivo ao poder pelos trabalhadores. Na verdade, o projeto de ligação povo-eméfiá aprovado pela assembleia plenária do movimento das forças armadas, mais não é do que a aprovação, a legalização, do caminho para o acesso progressivo dos trabalhadores ao poder. Chegou enfim a hora da verdade da revolução portuguesa. A partir deste momento não fica mais campo para os socialistas de palavras [27], para os falsos socialistas.


[27]

Estes, como a nata da humanidade, essa que nas sociedades ilustres se apelida cidadã, pegará então no seu jornal, o qual levará dobrado na cova do sovaco, e com ar complacente e resignado irá abater o cu no mesmo lugar que já ocupam os maiores entre os especialistas da bola. Na bancada urrante à mesa regada a cerveja, os socialistas do verbo, aqueles cuja anatomia não tem a disposição nem a vocação que a alma insiste em conservar, sairão do relvado onde os golos são ações e não meros sonhos, onde a corrida faz suar mais do que falar, onde as medalhas só se oferecem aos vencedores. Sofrem assim o pior dos desterros, são párias cegos, incapazes de saber que sendo vítimas do ardor do espetáculo, toda a participação verdadeira, genuína, real, lhes está vedada. Assim sofrem, e na sua dor inconsciente, salvarão muito vendedor de pipoca e cerveja da insolvência.


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