26.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Entenda-se que liberdade não deverá ser definida em termos apenas negativos, ou seja, como ausência de restrições [26]. A liberdade é isso, mas não é só isso. Se fosse só isso, rapidamente degeneraria no ato gratuito, na obediência aos impulsos mais imediatos. A ausência de restrições é uma condição de liberdade, mas, mais do que isso, há que definir a liberdade em termos positivos e essa definição passa pela responsabilidade. Ora, uma liberdade que exija como contrapartida a responsabilidade é o que não existe atualmente entre nós. E é essa situação que se procura manter com a tal tática de insistir na acusação de que a informação não é livre. Numa palavra, afirma-se que a imprensa não é livre para lhe tirar credibilidade e simultaneamente para garantir a libertinagem irresponsável dos sectores de informação que objetivamente servem o fascismo. A tática é subtil e tem dado os seus frutos.


[26]

Deverá ser definida em todos os termos. Defina-se assim pelos termos positivos, ou seja, como presença de possibilidade.

Ou ainda, por termos absolutos, ou seja, como ideia altarizável. Ou por termos relativos, ou seja, como ideia de autorizável.

Mais ainda em termos internos, ou seja, como desejo e vontade. E ainda em termos externos, lá está, como desejo à vontade.

Vejamos ainda em termos paranoicos, ou seja, estar no recôndito de onde se podem observar maquinações. Também em termos crédulos, ou seja, estar no recôndito de onde se pode viver maquinações.

Deverá ser definida em termos estritos, ou seja, somente, apenas e em exclusivo o que se encontra ao deitar os olhos sobre a lei. Pois também, em termos latos, ou seja, somente, apenas e em exclusivo o que se encontra ao deitar os olhos sobre a humanidade.

Já agora, em termos altos, ou seja, aquilo a que se permitem os bípedes para cima de um terceiro andar. E portanto, em termos baixos, ou seja, aquilo a que se permitem os bípedes para baixo de um rés-do-chão.

Vai na volta, em termos retos, ou seja, a habilidade de seguir em frente tomando os obstáculos como mera paisagem. E como assim, em termos curvos, ou seja, a habilidade de contornar as frentes fotografando os obstáculos de várias perspectivas.

Bem ou mal, em termos abertos, ou seja, reconhecendo que a fruição da liberdade dos antipáticos é um bem a preservar como todos os outros. E dessa forma, em termos fechados, ou seja, preservando-a para exclusivo acesso dos simpáticos, negando aos antipáticos a possibilidade de a viver esplendidamente.

Ainda disso, em termos claros, ou seja, poder ir comprar um jornal mostrando as partes do corpo que se deseja, despudoradamente. E como nesses, nos termos escuros, ou seja, comprando tudo como se fosse um jornal que se deve adquirir debaixo de uma sombra e quando ninguém estiver a olhar.

Aliás, em termos grosseiros, ou seja, poder estudar a cova do nariz com um dedo, retirá-lo e com ele um símio molhado, tudo isto muito devagar e perante o olhar focado e indiferente de uma professora de álgebra no ensino superior. Portanto em termos polidos, ou seja, escavar uma narina declaradamente, explicando ao presidente da junta que se trata de um processo extrativo de recursos endógenos, revelando depois um dedo de ponta decorada e mostrando-o, assente sobre um lencinho de algodão com iniciais bordadas a púrpura. 

Mesmo até em termos depilados, ou seja, conseguir ir a uma escola, a uma sala de aula, e depositar uma folha dobrada em quatro de vez em quando, e reservar o resto do tempo para fazer queixinhas. Pelo que mais em termos felpudos, ou seja, tremer com medo, com absoluto terror, porque tudo o que se move na rua, em duas pernas e atrás de dois olhos, tem vontades alheias à que vive dentro de um eu, alheias, estranhas, estrangeiras, desejosas de explodir no mundo em cores que, já se sabe, provavelmente serão do grupo que menos apreciamos.

E por aí em diante...


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