25.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Mas o importante a acentuar é que essa falta de liberdade que lamentamos não é a mesma falta de liberdade que os nossos detratores apontam. A falta de liberdade que deploramos é o mau uso que se faz das liberdades que conquistámos com o vinte e cinco de abril e que rapidamente se transformaram em permissividade irresponsável e em libertinagem. Porque, não devemos esquecer, a liberdade não é de forma alguma um direito fácil. Aprende-se praticando-a [25], mas é preciso que haja consciência de que ela constitui um longo percurso e que não basta tirar os açaimes para que ela surja em toda a sua inteireza e responsabilidade.



[25]

Os mitos de origem começam todos assim: no antes era nada, logo a seguir houve uma regra, depois outra, mais alguma; entretanto, sem que ninguém se desse conta, aparecem árbitros. Bem, nem todos os mitos de origem começam assim. Alguns começam desta forma: no antes era um árbitro deveras aborrecido, portanto produziu uma regra, depois outra, mais alguma; entretanto, sem que ninguém se desse conta, havia nada. Daí a importância que estes mitos colocam nas personagens a que chamam jogadores. Sem os jogadores, as regras pareciam apenas ideias um pouco idiotas, inventadas por árbitros ou por uma natureza um tanto ou quanto cobardolas, medrosas da infinitude das possibilidades. Com eles, as regras adquirem o estatuto de campo. Eis uma definição de campo: espaço de actuação restrito por princípios que conferem benefícios ou prejuízos aos agentes que nele participam. Esta é igualmente uma definição de jogo. Por isto, todos os mitos contam esta mesma história: no princípio uma tristeza, logo então umas regras, e depois começou-se a brincar. Os mitos dizem ainda outras coisas, como serem os humanos os maiores brincalhões do cosmos, daí produzirem tantas regras quantas possíveis: tornando tudo uma diversão, é possível esquecer momentaneamente que a vida em si é um produto desprovido de sentido; pode-se até crer que esse divertimento é o sentido da vida, mas mesmo isso é uma fraca ilusão de que os povos com mitos começam a sofrer a partir do momentos em que se inventaram tantas regras que até já existem formas de estar à mesa através das quais se perdem pontos, por exemplo, assentando cotovelos, e outras em que se ganham pontos desmedidos, como quando se usam pedaços de papel a fazer as vezes das mangas para limpar molho de tomate nos cantos da boca. Nestas circunstâncias, os povos com mitos estabelecem uma espécie de torneio em permanência, o que lhes confere a possibilidade de imaginar uma distância entre profissionais e amadores, amando os primeiros sobre os segundos, e elegendo-os em função dos modos e do empenho com que se dedicam a jogar, isto é, a seguir as regras que se criaram logo na criação, e ainda todas as outras que se foram inventando entretanto para se poder dar vazão ao estoque de troféus que se acumula nos armazéns de algumas fábricas. É nesta fase da estória dos povos, em que tudo já se tornou uma prova para jogadores profissionais e que se erodiu o apreço pela condição intrinsecamente jogadora dos outros, que surge essa coisa chamada liberdade. Os povos não a adquirem logo, uma vez que não precisam dela nas alturas mais antigas, em que ainda não sabiam que para passar de um edifício ao que está defronte dele é urgente tocar com as solas dos sapatos nas áreas do asfalto que estão pintalgadas com listas grossas de cal, nem imaginavam que apanhar um comboio sem desviar o seu percurso para passar num guichê constitui uma forma grosseira de batota. Quando surge, a liberdade tem o mesmo propósito que as regras dos povos com mitos: imprimir ao de leve na consciência uma sensação de sentido para a vida. E tem ainda um propósito complementar às regras, que é a de aprimorar e explorar as possibilidades estéticas que essas regras possibilitam. Ocorre o seguinte: os melhores jogadores adoptam crianças órfãs e também escravizam animais, então, um ou dois jogadores observam a mestria como os cucos se fazem educar como filhos de pleno direito por passarada que para os da sua espécie não passam de meros animais; estes dois jogadores decidem assim experimentar adoptar um cão como filho. Exercitam assim a liberdade. Quer isto dizer que o exercício da liberdade é uma infração às regras que tornam notáveis a maioria dos jogadores, mas que ao invés de produzirem uma queda na graça, se constituem como componentes essenciais de um novo jogo ou elementos que permitem estabelecer uma variante aceitável de um jogo existente. Estando a nova modalidade consolidada, recorrer à liberdade para participar nela já não é necessário pois cristalizaram os benefícios e prejuízos que deslizam do jogo. Por isto é tão difícil a liberdade, que apenas se saboreia em condições de intranquilidade, quando experimentar os limites conhecidos de uma regra tendem a semear prejuízo muitas vezes mais que aquelas em que instituem glória. Claro, esta glória é de tal modo encandeadora que os jogadores tendem a olvidar as gordas penas que sufocaram quase todos os livres. Esta é a causa de se ter a liberdade por algo com ar porreiro.


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