23.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Certa imprensa portuguesa roça, hoje em dia, pela quase obscenidade [23], o que faz temer que ela venha a tomar-se perigosamente fascista a muito breve prazo.
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Desgraçado, o agente T.Alves comenta que nunca vira nada assim. Quem o ouve acredita, o agente não terá mais que a vintena de anos, a falta de experiência sua-lhe pelos poros todos. Enquanto esperamos por mais informações – as que tardam a chegar já que a minúcia dos procedimentos parece excitar os profissionais de quaisquer lugares e empregos, pelo que estes se demoram em quaisquer deles, deleitados e devotos, derretendo numa volúpia que escapará a quem vive tangente a uma especialidade, tocando-lhe apenas nos instantes em que o acaso, o desejo ou a necessidade a isso instam – rodamos cervejas aquecidas por um sol que amaldiçoa o planeta dos cientistas, trocamos boatos agradáveis e grotescos, e vamos apreciando a sensível e quase antissensual inocência do escandalizado agente. Ele repete, na direção da exaustão, que nunca vira nada assim. Coloca a sua inexperiência no lugar central, talvez fruto de uma educação ponderada, reflexiva, deixando no sentido das suas palavras o espaço necessário para que se suponha que algo assim já tivesse ocorrido, que tenha sido testemunhado, apenas por outros, não por ele. T.Alves passeia na cara um par de olhos que estão desprecedentadamente surpresos. Mas se nunca viu, a inflexão denuncia outra experiência. Porque não lhe resiste na voz nem a surpresa nem a confusão, nela não encontramos os resíduos do contacto com o estranho ou com o primeiro. Há, sim, um fumo de condenação, o tempero que saboreamos da folha do jornal à mesa do café, da paragem de autocarro à partilha de um cigarro, é o cheiro de quem roçagou com o lombo nos costados de um tribuno, e isso está presente no agente, presente e invisível como são invisíveis todas as coisas que um povo partilha universalmente tornando notáveis apenas as exceções que se apontam dizendo, repara naquele, ou então, pobrezinho, e porque todos temos esse bafo de magistrado sabemos que o que o agente jamais vira vive no lugar de onde nascem as coisas que nos agridem a sensibilidade, o país das afrontas, a pátria do obsceno. Quase nem queremos saber, mas claro que o exigimos, agora exigimos, declaramos assim clamando, o povo, o povo, fazendo crer que é o interesse do povo que nos excita a saber, primeiro ao agente, depois ao povo e então a nós. Por isso lhe apontamos microfones e gravadores, piamos, amontoados, um vá lá, vá lá, prometendo um toma lá, dá cá, choramingando algo além do procedimentos etecetera e tal, e com suavidade insistimos mesmo quando é tão óbvio que a cada momento a vaidade do agente T.Alves escala um pouco mais do seu ego, empurra para o fundo de onde veio tudo o resto. Nem sequer reparámos quando aconteceu. Mas nalgum momento, o agente deixou de resistir, passou a fazer charme. Sim, aquilo ali já não é resistência, ensinámos o rapaz a valsar à nossa moda, e a sinceridade com que o faz... Deveríamos ter orgulho? E continua a oferecer vaguezas, incertitudes, tubicontínudas que nos prendem a ele, salivantes. Alguns dos nossos desconfiam já: nunca nos mostrará com efeito o que viu, porque se tratará de algo tão simples e tão perverso como uma folha de jornal.