22.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Sabemos como tem sido ultimamente explorado esse estratagema – o estratagema do boato, da calúnia, da notícia infundamentada. A princípio certos jornais manejavam tais armas com subtileza, através da insinuação, das alusões, da manipulação velada. Atualmente, a tática aparece aberta e desbragadamente. A linguagem insultuosa, o culto do esgar grosseiro, o recurso irresponsável ao boato e mesmo à mentira, mostram à evidência que a libertinagem impera [22] em certa imprensa, da forma mais impune e irresponsável, atropelando constantemente a lei da imprensa, talvez pela certeza que depositam na inoperância da nossa máquina judicial para a fazer cumprir.
[22]
Nenhum dos grandes mestres da estratégia permitiu que a ética dos sacerdotes contaminasse as flores que cuidava no seu jardim. A vitória, disseram todos, é o desabrochar de uma pétala suave e rosada no coração do inverno. É, pois, um crime. Governar também. Os sacerdotes que fiquem nos seus estradinhos de madeira a carpir as tristezas dos que quebraram as leis do estômago: não farás aquilo que te embrulha as vísceras! Os estrategas que encantam príncipes e generais não verteram uma lágrima por tão pouco. Mas verteram-nas todas por mais... é que não poucas vezes o poder se deixa tocar por pieguices, e os cálculos fazem-se sem ter os fins em conta. A pieguice, sendo material que vive dentro de um indivíduo, é flor que desabrocha sempre em proveito pessoal. É, portanto, libertinagem. Seguir o trilho dos bons sentimentos, a simpatia e o agrado pelas criaturas mesmo em frente de um nariz, indulgência, libertinagem. Traçar um fim sem sentimento, um propósito para um algo no facto inexistente porque abstrato – um país, uma coroa, um povo – e correr para desabrochar esse intento: eis a ética de quem governa. O mais é libertino. E nas mãos dessa corja egoísta, dos pastores de rebanhos narcísicos onde os sentimentos são mais caros que a lã, até os mais belos instrumentos do poder degeneram. Imagine-se: um boato que pode derrotar um inimigo do trono sem esforço nem sangue; uma mentira que pode aliviar de rancor um povo. Nas mãos de tal gente, mesmo estas nobres ações terão cheiro pútrido.