21.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Há que reconhecer que esse foi um erro do governo: permanecer quieto e indiferente à calúnia sem sequer defender-se [21], na esperança um pouco idealista de que só a verdade é revolucionária. Isto não significa que mudemos agora de opinião, mas achamos que para além do carácter revolucionário da verdade não podemos ignorar que a mentira é uma das grandes armas da contrarrevolução, sendo nosso dever combatê-la incansavelmente.
[21]
«Contar-te-ei agora por estas palavras, ó Pastor dos Avisados, disto que se
diz ter ocorrido na China, nesse tempo em que ela fora maior que grande porque
o seu chão era pisado por pegadas de profetas que mil e um anos depois ainda
estão gravadas no coração de setenta
cidades. Estes sábios, diz-se deles que mais do que procurar e partilhar
sabedoria, se haviam convertido nela mesma, e que apenas pousar os olhos sobre
eles constituía já em si aquilo a que os bárbaros do Garbe chamam uma
descoberta. Como andavam deveras pelas terras chinas do oriente, movendo-se
como rios meandrantes que escavam e esbroam uma boa paisagem, destruindo um
pedaço dela para a tornar mais fértil e abundante para as míseras criaturas que
nela subsistem, estes sábios deram muita consulta e viveram incontável
peripécia. Eis aquela que os primeiros entre os exóticos chamaram A História do
Sábio e da Pedra com Cinquenta Golpes.
«Entre os caminhos do mundo nenhum sofrerá mais poeiras e securas,
porquanto rodeada da visão do verde e o uivo da chuva, que a estrada que corre
os trajetos onde os sábios passeiam para se educar. Vão à vez, para que não se
encontrem uns com os outros, interrompendo a meditação contemplativa com sete
dedos de conversa e uma vasilha de licores dos que abandonam a gravidade da
cabeça e a convidam a flutuar. Nesse trilho, por vezes as silhuetas
pressentem-se umas às outras, embora hajam tantas léguas distantes entre si que
apenas o olho soberano e omnividente do falcão possa ver ambas e saber que
pertencem a homens calvos e de passo arrastado.
«Foi num ano em que as aldeias contavam sete más colheitas, em que os
soldados jaziam em sete terríveis batalhas e em que raras crianças de sete anos
sabiam ter irmãos mais novos, que um velho emergiu e assentou as plantas dos
pés na poeira dessa estrada. Diz-se desse velho que nunca nascera nem nada
fora, que emergira duma carapaça de tartaruga milenar como o figo emerge da
flor, ou que era ele mesmo o que resulta do amor que os deuses têm pelos
animais que vencem a amargura da mortalidade banhando-se em mil anos de luar,
mas nada se pode saber do seu passado com a certeza que se tem sobre as coisas
sabidas. O que é certo é que nesse ano terrível o pó da estrada foi marcado
pelo seu passo suave e indelével. Um eremita que por lá passou alguns meses
após, disse do rasto desse velho «Deixou na areia a impressão que o rio deixa
na margem, um convite a mudar todo o seu curso, apenas molhando-a com um
beijo». e terminando estas palavras remeteu-se ao silêncio sepulcral que se
confunde com sapiência nos homens de cabelo alvo e com mistério nas mulheres de
adorno rico. Neste ano de que te falei, ó valoroso Guia dos Despertos, os
passos do velho sábio correram o pó do deserto como um rio infantil,
sussurrando aos grãos de areia para que se desviassem subtilmente, transformando
o caminho quase nada e para sempre, e assim foi que passou um vale de nome
famoso onde as corças correm alegres e cerca de um penedo legendário que o
choro comovido dos deuses escavou dando-lhe a professoral qualidade de
equilíbrio que os ascetas da Índia procuram quando deitam os pés sobre as
pernas, e por debaixo do sol temeroso assim continuou até aprender a escutar os
ensinamentos da própria sombra, esse ajudante enviado pelos céus para que os
mortais estejam acompanhados do divino. Foi escutando-a que o infantil velho
sucedeu entre duas figueiras milenares.
«As sombras das figueiras projetavam milhares de direções, e os pés
macerados do sábio, dormentes de experiência e meditação, souberam guiar-se
apenas por esse sentido que indicavam as sombras dos troncos, as partes mais
nutridas e mais assentes de uma árvore. Seguiu-as sem perplexidade, lembrando a
máxima «Das flores e frutos se deve esperar tudo, exceto aquilo que só o tempo
ensina». Subiu por areias grosseiras, por vezes resvalantes, e sete vezes lhe
escapou o semblante composto dos seres verticais até chegar diante de uma
grande pedra, negra como a noite, antiga como as estrelas, brusca como o
trovão, e sobre o chão que a antecedia, sentou em contemplação.
«A pedra era ricamente ornamentada por golpes incisivos e toscos,
premeditados e ocasionais, de imensos feitios e formas, embora todos eles tão
perfeitamente harmoniosos que o coração palpitante que os contemplasse
desejaria imaginar que a rocha tivesse nascido assim. Mas o coração do sábio
não palpita assim, ele apenas contempla, e por isso, em pouco tempo, consegue
dizer da pedra que «Tem familiaridade com aquelas esculturas de macaco em
madeira, cada um dos cortes ocultado pela forma». Aventurado Capitão dos
Abandonados, dizem os espíritos do vento que a pedra, insatisfeita com este
comentário do sábio, deixou-se ficar sentada em frente a ele por sete luas,
debaixo de trovão e chuva, sofrendo a fome e a sede, até que o seu espírito
pudesse baixar às profundezas onde tudo é tão escuro que para ver é necessário
apalpar. Um dia, quando este tempo era findo, o sábio ergueu a voz do silêncio
a que estivera votada, empurrou o ar pela garganta, e nenhum som lhe saiu. A
pedra deixou o sábio nesse instante, porque lhe ouvira a intenção, e vira que
por olhos internos ele encontrara os cinquenta golpes de que se fizera.
«Assim termina aquela a que chamam A História do Sábio e da Pedra com Cinquenta Golpes.»