20.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Altos responsáveis chegaram a afirmar que tinham necessidade de recorrer aos órgãos estrangeiros para saber o que se passava em portugal. Mas, em nítida contradição com estas declarações esses mesmos responsáveis, talvez por distração, afirmaram após curta ausência do país, não possuir elementos para apreciar a situação pois não tinham tido acesso aos jornais portugueses durante o tempo que tinham estado no estrangeiro. Tais pequenas distrações passam porém desapercebidas à maioria menos atenta [20] e o governo nunca pretendeu polemizar entrando na denúncia direta e constante de todas as contradições e manobras táticas que lhe iam sendo movidas pelos seus detratores.
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O ministério de educação faz encomendas escandalosas dessas pequeníssimas distrações. Se tem sido um escândalo? Escândalo é favor. Mas até o escândalo é escandaloso. Afinal, este ministério não faz mais que os seus antepassados, apenas o faz de modo mais declarado e inteligível, ou seja, com menos capacidade de esconder as minúcias da sua arte, e com a sofisticação mental de um imbecil de primeira linha que é como quem diz de um cidadão médio. Daí devermos prestar pouca atenção ao escândalo e à sua reação escandalosa. Se os custos do erário público poderiam ser investidos em algo melhor que essas pequenas distrações, é coisa que não passa do delírio choninhas de quem vive aparvalhado num país que investe publicamente como um novo-rico, já que cá encastrar a tecnologia mais brilhante em todas as paredes é mais obra de estado do que ter serviços públicos a funcionar. O ministério avança, pois, na sua saga épica de investir os fundos do estado em pequenas distrações, protagonizando assim aquilo a que os historiadores chamarão o que sempre chamaram a tais eventos, quando o calor da atualidade já esfriou e o inverno repousa sobre os ossos de um tempo a que já se chama passado: uma reforma do sistema de educação. Apenas e somente um processo de uma cadeia de processos sem fim, prova viva de que também os sistemas de estado são órgãos que pulsam, aliás, de que o estado é em si um organismo. O plano já deu resultados comprovados. Os seus frutos, de casca áspera e amarga e sumo doce, são já conhecidos nos minúsculos universos em que se depositou. Cuidadosamente instaladas de modo a influir sobre o processo de aprendizagem, as distrações demonstram formar a geração mais desatenta de que há memória. Assim se aplicam nas paredes, nas luminárias, nos quadros, nas carteiras, nos lavatórios, nos talheres das cantinas, nos cantos dos manuais, nas lapelas dos professores, nos bolsos dos aprendizes. Efetivamente disseminadas, as mais pequenas distrações produzem com efeito a mais excelsa cidadania, porque devidamente desatenta e por isso dócil, guiável, um povo que é finalmente capaz de viver o sonho da mais nobre democracia, quando entre a classe aristocrata e as classes baixas não existem diferendos nem crispações, o desejo da uma é indiscutido pela outra, andam de mão dada, ambas, em direção ao futuro harmonioso que aguarda os que para ele caminham em filinha indiana. Os estudiosos da aprendizagem cantam loas em uníssono: baixam os níveis de absentismo e de desistência quando a escola é indistinguível do centro comercial, baixam os níveis de sectarismo quando a literacia se homogeneíza no naturalmente sábio nível das águas do mar. Dirão os jornalistas que o custo destas vitórias é tremendo, que nos endividamos a nós e ao futuro. Mas se há coisa que este povo sabe, é que não se constroem estádios apenas com suor e lágrimas.