19.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
A campanha desencadeada denunciando a falta de liberdade de informação ou, na melhor das hipóteses, a sua manipulação sistemática por elementos partidários, tem um objetivo muito preciso e corresponde a uma tática conhecida: retirar credibilidade aos órgãos de informação sem que haja necessidade de passar pelas provas de o demonstrar. Ao fim de muito martelar nessa tecla toda a gente acaba por acreditar nesse simplismo [19] resumido na expressão «os órgãos de informação estão nas mãos dos comunistas». Aliada a essa campanha, há outra complementar e que consiste em fazer crer que, precisamente por isso, ou seja, precisamente porque controlada pelos comunistas em conluio com o governo, em conluio comigo, essa informação é falsa, não merecendo o menor crédito.
[19]
Esse boato, forte e enraizado, corria entre os afinadores com a ligeireza
de um cigarro após um par de copos. Era a sua história maior, a que os
aglutinava numa massa de gente de anonimato esquecido, por isso entre eles
corria tanta vez pelo ar: após o primeiro encontro de olhos quando ainda os
nomes são prática desconhecida, nos solilóquios que decoram exéquias e
entalhada nos socalcos das grandes pedras que cumeam os jazigos, entre dois
copos alcoolizados ou dois comentários sobre o tempo, quando um som arranha a
traseira do ouvido, quando a histeria toma a dianteira na condução de uma vida,
quando é dia de votar. Tanto o repetiam que o conto gozava da particular honra
que se confere por norma aos factos, a de verdade que só uma verdade mais
depurada consegue a custo destronar. O mote, como se imagina, era um piano.
Seguia mais ou menos por estes meandros:
Havia na Rua do M., entre as portas pares e as portas ímpares, um rasgo de asfalto no chão. Quem por ele passasse dia-sim-dia-não repararia sem grande custo que de todas as janelas que se podiam observar a partir do asfalto, todas se veriam à vez com parte do recheio amostrado, excepto uma em que toda a cor e forma internas eram protegidas sem um dia de descanso, ora por portadas ou cortinas grossas nos dias frios e ventos, ora por cortinas leves quando a brisa corria frágil. Essa janela para a qual várias gaiatas apontavam rindo aos pares, escondia tudo, inclusive as sombras. O J., rapaz que levava, da mercearia até ao apartamento velado, o cabaz e a conta, dizia da janela o mesmo que a patroa, a Dona F., isto é, o mesmo que se dizia em toda a rua, que aquela era a Janela da Russa. Ora certo dia o J. em procuração chama um afinador para ir à Casa da Russa, aquela que está por detrás da Janela, e o afinador bem repara que o J. está babado, salivante, com ar de quem delira. Não era para menos, já que em anos que subia aquelas escadas para levar pão, leite, ovos e tudo o mais, nunca pudera espreitar o mundo velado da Russa. Subia as escadas todas as sextas-feiras com as vozes e os pedidos do bairro sobre os seus ombros, os desejos de saber, as perguntas infinitas, de que cor o cabelo, quão grande o sofá, se usa televisão, carpete ou linóleo entre mil outras, e voltava a descer com o peso da frustração, quase empurrando as suas costas para o chão. Da Russa, nem miragem, provada apenas pelo saquinho com moedas pendendo na maçaneta, pela ausência da mercearia anterior, pelo ocasional saco do lixo. Isto ele sentia com força enquanto passava o recado ao afinador, mas embora o sentisse não o foi dizer, pelo que o outro o julgou pouco mais que excêntrico e nem isso lho espantou já que todo o bairro parecia padecer um pouco à medida que ele caminhava na direção da Janela da Russa. O afinador lá subiu as escadas, bateu à porta, entrou e correu a porta atrás de si. Depois o silêncio. Nem vozes trocadas nem pingo de som de um piano que com tanta urgência requis manutenção. Lá fora, pares de ouvidos à escuta até a vista se perder. E nem um agraciado com o mais pequeno som. Passaram assim três dias e três noites até emergir pela porta da Russa o afinador. Desceu até à rua quase espantado, quase amedrontado, com a floresta de olhos e ouvidos que, enraizada, parecia segui-lo. Foi o J. que quebrou esse feitiço. Deu sete passos de encontro ao afinador, e fez da sua voz a voz do povo, e diz-se até que o povo se sentiu representado assim mesmo em ele não tendo gravata nem diploma, escorrendo todas as perguntas cristalizadas numa só: então? A isto, o afinador respondeu que fora só um hertzinho mais acanhado e que tudo se resolvera. Depois, entrou num carro, e nunca ali voltou.