18.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Haverá decerto quem fique surpreendido. No entanto, para a grande maioria do nosso povo – a quem não se pode enganar eternamente a boa-fé – as revelações que se fizerem não serão mais do que a confirmação daquilo que ele já há muito suspeita... [18].
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Que afinal, o mais abominável homem que possa existir vive, de facto, nessas terras frias onde a brancura cobre o solo por meses sem fim. Retirada a película da ignorância que pinta as pálpebras dos notáveis e de outros, esse abdominável homem nevado confirma-se, com todo o pêlo que se lhe presumia sobre a pele, a camada que o aproxima dos bisontes e dos unicórnios lanudos, bestas que como ele estão ocultas à memória dos factos mas persistem atrás do véu que veste as culturas dos povos. E ele dirá Aha porque já num tempo anterior ruminara no seu espírito esse sentimento indelével de quem pressente uma verdade que uma cabala de pretensos magnânimos se esforça por ocultar com poderes extraordinariamente seculares e de quando em vez com poderes de outra ordem também, caso um alinhamento planetário decida aliviar o peso desse empreendimento. É espectável e admirável, o momento em que a suspeita recebe aprovação do destino para se descascar, pois ela grita com os pulmões do espírito em que gestara e aos mil dedos que eram já apontados na acusação de perfídia junta-se um festejo vingativo e logo público, como são aliás todos os festejos públicos, e na vingança jactante um coro ruge em uníssono e clama por reparação, a longa e sofrível tortura dos protagonistas da cabala que encarcerara a suspeita nos espaços do silêncios por todas aquelas semanas.