17.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Mantendo-me fiel ao princípio de deixar que sejam os outros a cometer as más ações e também porque sei que, através da minha pessoa, é o movimento das forças armadas que eles pretendem atingir, não responderei jamais aos autores dos insultos de que sou alvo [17]. A cada um a sua moral. No dia em que se escrever a história destes últimos quinze meses e se trouxer a lume as traças e as manhas de alguns dos seus atores e figurantes, uns cujo nome anda nas gazetas nacionais e estrangeiras como paladinos da revolução e da liberdade, outros, conspirando nos corredores e nos cantos de sombra.



[17]

Naquela tarde quente, enquanto o suor corria pelos pêlos do pescoço ouve quem pensasse coisas terríveis e trágicas, que se benzesse ou tratasse de olhar pela esquina do ombro para verificar se algum belzebu não andaria por i. Alguém até saiu de fino, muito acocorado nas sombras e pela direção das costas, fingindo todos os cuidados de um vilão de desenho animado, para desatar numa correria louca assim que se viu lá fora, em campo aberto, e lhe esqueceu que o diabo não torna à fornalha só porque se deixa de lhe olhar com a vista, correu louco até ver um homem de farda azul e nesse momento tombou-se-lhe ao chão e desbraguilhou o medo em arfares e apontaduras atrás reparando só depois do conto que falava com um mecânico de ar confuso, correu então mais e foi de borco que se jogou nūa esquadra e por em ela disse e se fez ouvir para que os pelintras no soldo do poder acorressem adonde houvera o demo, coisa que nem vez uma sucedeu porque de ouvir a estória dois agentes deram em rir, chamaram mais três, avisaram que tinham que ouvir isto, intimaram o pobre corredor a recontar, pois foi esse reconto recortado de riso e um toque de humilhação que um só bófia andou até à porta com ares de quem tem tino e lá perguntou quem era esse mecânico que bem gostava de o ver. Sim, isto ocorrera assim, mas alguém apontara as culpas para o calor que tanta vertigem convoca em quem anda sobre a areia rente ao chão. E aos que pensavam coisas trágicas e se benziam, que eram muitos e de número igual à parte maior dos testemunhantes, uma lufada de ar fez saber que ainda era correcto pensar e que por tais artes não poderia ser dada a existir a coisa temível das suas mentes. Um deles o articulara já pela noitinha explicando o sucedido aos comparsas de taberna que erguendo um copo e o vazando ante o descer matematicava que homem que não responde jamais a insulto é homem morto isto nas mais das vezes e homem morto que bota parlatura nos discursos é criação do deus inverso, até que tudo ocorre por lógicas e deveria ser palpável obra de satanás esta feitura de um homem falecido ecoar verbos ao microfone mas se lhe puxarmos o fio da cabeça à teoria descobre-se ao descascá-la que é feita de medo e não de ciência pois do trono da razão se entende que entre os lençóis de magma e a camada do ozono há mais homens exagerados que homens endemoninhados e é mais fácil botar mão num homem com cagança que num cadáver sonorizado e que da experiência vale o saber que quem tem do gozo e do insulto apenas despreocupação raras vezes o aponta e aos que não sói o planejamento de vinganças difícil é encontrá-los em promessas de inacção e enquanto isto lá ia emborcando. Naquela tarde cheia de calor, só os joelhos de uma menina tremeram perto da verdade. Vacilaram. Um pouco, apenas. Dentro dela imaginava uma coisa única e terrível. Era uma memória. Recordava o viver dela, e temia porque por outras vezes pairara em ameaça, na mesa do jantar, na sala, quando recebia aquelas notas na escola. Aquele homem, aquele terrível homem, votava os que haviam cometido uma pequena falha – um azar até bastante aceitável, uma brincadeira certamente inocente – ao implacável tratamento do silêncio.


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