16.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Apelar para os baixos sentimentos, para os pavores ancestrais, para a ignorância ardilosamente inculcada na população pelo fascismo, é ser-se antidemocrático, é dar prova de desprezo pelo seu semelhante, pelo seu compatriota a quem foi vedado o acesso à mais elementar manifestação cultural. É, numa palavra, um procedimento de cariz fascista – já que foi abusando da ignorância do povo português que o salazarismo e o caetanismo se mantiveram autoritariamente no poder por tão largos anos! É pois de lamentar que homens, com quem a revolução deveria contar, que tinham o dever de se encontrar lado a lado com os outros revolucionários, civis e militares, não hesitem em estabelecer alianças de facto com os inimigos que ontem combateram [16], só com o propósito de quererem impedir que as classes trabalhadoras tomem o seu destino em mãos – esquecendo até que, em última análise, e por mais mostras de arrependimento que vierem a dar, não se esquivarão mais dia menos dia à sanha dos inimigos do povo português.
[16]
Um toque amargo sobre as línguas dos combatentes, um punhal instalado entre
dois dos seus ossos traseiros.
A aliança com o inimigo de antanho é, para o converso, um pecadilho que
importa salientar. Estimula-lhe o apetite. Rilha os dentes. Rilha.
Imaculado, o guerreiro de episteme sanguinária pressente a sujeira que
abaterá sobre as suas vestes pristinas.
Um nervo irritado estremece os membros, um sismo desperto desde os confins
do coração desata aos gritos. Poupa-me. Poupa-me.
Há maldade na paz que nasce sobre a morte de uma guerra civil, vileza no
abraço entre vizinhos, obscenidade no beijo entre primos.
O corpo palpita, todo, em revolução. Recusa morrer só porque um planeta deixou de virar sobre si, de correr em torno de um sol. Parar é morrer. Parar é pior que morrer.