15.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

E é porque ela é como é que cada cidadão português verdadeiramente empenhado no nosso processo revolucionário, tem o dever absoluto de dar mostras das mais altas qualidades morais. Política e moral são inseparáveis. Não se pode encher a boca com democracia, socialismo e liberdade [15] e, ao mesmo tempo, ter ações salpicadas de tinta salazarista, com tudo o que isso significada de falta de carácter, de grosseria e de arrogância. Isso nada tem a ver com o modo de vida que queremos estabelecer e ver desabrochar em portugal. Isso nada tem a ver com o socialismo: o socialismo que queremos consiste também na possibilidade de cada cidadão de ser um homem de qualidade, de ser um homem de lisura, um homem limpo, um homem íntegro, um homem transparente. Só é livre aquele que respeita e enaltece o que há de grande, de belo e de humano nos outros homens.



[15]

Em qualquer outro dia, as palavras não seriam mais do que uma miserável admoestação, um dos vastos testemunhos que a humanidade vai deixando atrás de si, comprovando a docilidade impotente dos pais zelosos, e tãobem o abuso glutão das crias. Porém, tratando-se de um dia atípico, não foi isso que decorreu. Era como se observássemos uma criatura da ficção ganhar peso e medidas, encher um resto de mundo, e inspirar o medo respeitoso que os menores têm das autoridades naqueles contos que todos apreciamos. Por isso que, em vez de a atitude da insolência ou do escárnio, ali víamos como que a sugestão da silhueta de três cães de água portugueses, possantes e de dentes bem afiados, tremendo as patas traseiras e por isso todo o corpo, sustentados pelos braços e cus implacavelmente enterrados no chão, ganindo como só se gane quando os donos chegam a casa após deixarem um só cão todo o dia na solidão habitacional, descobrindo que a sombra lesta de um pombo despertara no coração do cão dócil a memória do lobo caçador e num safanão selvático uma belíssima jarra acabara por distribuir a sua identidade por mil e um cacos. À vez, cada uma das criaturas abriu a boca, para a vazar do que a preenchera, esperando conquistar o perdão ao anular a gula com que se havia apoderado das guloseimas que encontrara na dispensa. Mas nenhuma produziu mais que o simulacro da náusea. Nem uma poça de baba misturada com democracia, nem um fio de socialismo molhado, nem um vestígio de liberdade comida pela saliva. Abertas as bocas, só lá sobrava ar: no encontro com o medo, cada goela havia engolido em seco. Das coisas saborosas, só restava a memória do repasto. Fiadas de dentes mastigando uma autoridade partilhada, a soberania dos coletivos que tomam para si um destino em comum, línguas esguias e serpenteantes limpando das barbas a gordura magra que sobeja nos corpos destituídos de classes, aqueles em que as diferenças se esfumaram além dos nomes, bacias de saliva formandas entre as gengivas para ensopar a ausência de algemas, transformando delicadamente a possibilidade desejada num bolo nutritivo. Tudo fora engolido, nada restava. Nada, excepto a fúria de um progenitor. Não se podia, dizia. Com efeito, não se podia. E, no entanto, o facto. O facto, pensaram as criaturas; havia ainda o facto. Os seus estômagos estavam agora prenhes dele, de um facto a caminho dos intestinos. O que não se podia, havia ocorrido. Conseguíamos ver nos seus olhos importantes o brilho dessa realização, dessa descoberta: tinham encontrado a verdade que se esconde na sombra das palavras, aquela que deixa rasto como uma arranhadela na perna. Sem malícia. Ali, só encontrámos arrependimento. Uma tristeza entorpecedora nascida ao saber que afinal o mundo é tão vasto e que as leis da natureza são permissivas às contrariedades do desejo de quem se ama. A desilusão, afinal, é pior castigo que o impedimento. Não se pode, dói menos que como puseste fazer uma coisa dessas. Essa noite as criaturas adormecem com a comoção absorta em pensamentos pesados. Irão educar os seus instintos, por aquase um par de dias.


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