13.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Digo, porém, que efetivamente a nossa Revolução estará em perigo – e de morte! – enquanto eles teimarem em dividir as classes laboriosas, em intimidar a pequena e média burguesia, em dividir o movimento das forças armadas, em destroçar a aliança povo-eméfiá – e também a fornecer a órgãos de informação adversos ao nosso processo revolucionário as elucubrações delirantes e malévolas do seu espírito pequeno-burguês. Sim, são eles que põem a pátria em perigo, eles que semeiam a discórdia [13], que suscitam progromos e autos-de-fé fascistas, que arrebanham e cobrem todos aqueles que, com culpas no cartório, tentam desesperadamente, raivosamente, travar uma derradeira batalha.



[13]

Primeiro foi ela. Olhou de esguelha, fitou os olhos naquela nuca, reparou nos pés que pareciam brincar na segurança do anonimato, arranhou a garganta e quis rosnar. Ainda se lembrou a tempo que estava naquele sítio onde a violência tem um só dono. Não faz mal, decidiu. Retirou um bloquinho de folhas com perfume de pêssego, uma caneta com a tinta da cor do mirtilo e tocou com a ponta pintada no quadradinho rosado. Desistiu. Pousou a caneta e levou os dedos à boca. Sim, teria que se concentrar para isto, evitar distrações. Com algum pesar, abandonou a pastilha meio mascada, ainda lhena de sabor por absorver, no verso da mesa. Então repegou a caneta e escreveu. Isto e aquilo e ainda por cima: filho dum pai. Claro, sorriu na boca a malícia da vitória sonhada. Tampou a caneta e dobrou o papel arrebitado. Esticou o braço. Esticou mais. Com cuidado, evitando o conhecer de autoridades mais altas. Esticou mais um pouco, já com a língua a aflorar. Os dedos dele tocaram o papel, o braço dela retraiu.

Foi então dele a vez. O sangue aflorou à face quando percebeu que lhe era dirigido. Não deu um cheiro que fosse ao fungador, abriu o papel com a voracidade de quem projeta capturar o pai natal a esquentar as mãos numa botija, e mal viu as letras soube que era imperativo respirar: ar adentro, ar afora, um tê e um u, tu, um é e um esse, és. O sangue subiu novamente à face quando percebeu que lhe era dirigido. Mas logo então, reconheceu uma profunda inimizade. Ali estava, uma linha por baixo, a vilania que tantos rancores lhe despertava. Ele olhou, enraivecido.

Foi aqui a vez de alguém mais. Uma parelha mais além vira, contara, rira sorrateira e agora vendo a lividez indagava como pudera ela tal coisa. E do lado inverso outra grupeta também destacada em espionagem tudo comentara no instante do testemunho e agora observava como podia ele quando ela, tão tão, quem é que ele pensa que é. E a parelha expandiu a sua versão bichanando no seu canto da sala. E do canto outro, a grupeta distribuía por alguns mais a excitação. Lá chegou o momento em que por carteiras meias e num mesmo momento, pela esquerda se arrepelava a pele, pela direita se lhe inflamava a garganta, e debaixo duma mesa, dois joelhos já não se podiam tolerar.

Entretanto, ela morava no teto, sonhadora, pérfida. Imaginava a mão dele, os dedos envoltos no papel. Antevendo nele uma reação. Vivendo antecipada um rubor cujo ovo poderia nunca eclodir. Ah, escolhera o papel com o cheiro mais adequado.

Entretanto, ele olhava ainda. Enraivecido. Para o meio do papel rosado com um perfume incapaz de acalmar. Sim, para o meio do papel, onde se sentava reinante a velhaca sílaba, um pê, um ó, um erre, como é como é raios. A raiva a inchar perante o gozo da burrice.

Entretanto, por carteiras meias onde os joelhos escondidos já não se podiam tolerar, os estalos foram sinfónicos.


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