12.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Durante séculos e séculos, como bicho dentro da maçã, o partido castelhano corrompeu e desfibrou o país até o levar ao opróbio de mil quinhentos e oitenta. Mais perto de nós, foram os integralistas (ora de imitação francesa, ora de figurino germanófilo e nazi) que se entregaram à mesma tarefa. Hoje, erguem-se vozes a cantar loas à europa – não à europa dos trabalhadores, claro, mas à europa dos monopólios e das sociedades multinacionais. Ontem, houve quem servisse castela contra a arraia miúda, hoje há quem deseje colocar as classes laboriosas portuguesas na situação de fogueiros da fornalha da europa capitalista... Desprovida de sensibilidade popular, essa gente não tem sequer a vibração nacional de escolher melhor os seus confidentes e os seus cúmplices. Fala a torto e a direito [12], espalha boatos, implora a intervenção estrangeira nos assuntos pátrios – e tudo isso, pretendem eles, porque a nossa revolução está em perigo às mãos do gonçalvismo, porque o nosso povo... Essa gente é o que é – e eu sou membro do movimento das forças armadas. Não respondo, pois, aos seus ataques pessoais.
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Deveras, isto tem sido observado pelos nossos operacionais no terreno. E a prova chega-nos, neste maravilhoso século em que a película aprendeu a capturar sem trégua os livres e felizes pompons de luz. Tiradas em intervalos regulares, seja seguindo o ritmo dos cronómetros, criaturas desprovidas de alma, seja ao compasso do trovão, batuque com que Zeus se demonstra aos mortais, rindo gozão com o azedume que isso provoca nos seus companheiros mais intangíveis, cujas existências só encontram prova nas palavras de homens barbudos que secam a garganta no deserto, rindo e mais gozando porque pouco lhe importa que os mortais lhe recordem o nome já que os seus esfíncteres ainda fecham ante a sua prova, ora tiradas neste intervalo divino, as fotografias que se façam logo apresentam esta estranha silhueta, o contorno estrangeiro, ora em uma ora na que lhe subsequenta, deparamos com a quasi-simetria que os primatas usam na cara, um lábio partido com a meia parte escorrendo por um pedaço de cara, os outros dois quartos fugindo pelo lado aposto de uma reta sugerida pela linha de sombra que produz o nariz, ora na outra, todo o lábio um e dois enrolados num círculo, fechados num ponto, e empurrados como que atirados para um dos lados só, brutalmente encostados a um dos lados por quaisquer forças que sobram arrepelam até as peles que cobrem ossos. Ah, os sons que daí emanam, em um de esses modos e bem igual em o outro, grunhidos que copiam a forma e o canto dos grandes pássaros, espalham por todas as direções, como que dirigidos a miles interlocutores. E deles, se tiverem ouvidos, ainda os podemos ver assim, assim, mandando cabeças que sim, sacudindo-as que não, como entendendo tudo quanto diz.