10.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Não satisfeitos com a total liberdade de que desfrutam no país, tais indivíduos, ao verem que o tempo trabalha contra os seus interesses de politiqueiros ávidos de poder, transformaram-se, sem vergonha, nos principais fornecedores das oficinas reacionárias que, em portugal e no estrangeiro, porfiam em lançar o descrédito sobre o nosso empreendimento patriótico a que deitámos ombros, desde o vinte e cinco de abril, para que cada português seja livre e feliz [10].



[10]

Que significa isto? Ora, significa exatamente aquilo que espanta o espírito de quem ouve estas palavras: livre; feliz. Significa, tão simplesmente, um mundo, uma realidade, uma existência, em que cada português, seja ele qual for, tenha propriedade plena destas duas coisas, que ande nas ruas, que tenha um sorriso rasgado, em suma, que seja capaz de ter um automóvel, que possa ir jantar fora de casa quando lhe apetecer, que tenha um cinema perto de casa, que consiga levar os filhos a uma universidade, que não lhe falte em casa eletricidade de modo a que não lhe derretam os gelados de pacote, que pague com os seus impostos o almoço dos reclusos o salário dos guardas que os mantêm e dos juízes que o encarceraram, que tenha um ecrã plasma na sala, que tenha também outro televisor no quarto caso seja moda entre a vizinhança, que acredite que não há razão para concorrer a cargos políticos quando se detestam as políticas oferecidas porque a bem ver isso não é a principal diferença entre a democracia e os demais regimes, que tenha alguns livros de lombada grossa perto dos vasos que embelezam a sala de visitas, que ao menos num desses gordos livros se sugira uma palavra de pendor espiritual de preferência numa língua que se fale no mediterrâneo oriental, que tenha acesso a uma internet de qualidade, que possa consumir as substâncias que mais prazer oferecem ao seu espírito, que não lhe falte nem papel higiénico nem sal de mesa, que tenha na esquina da sua rua pelo menos quatro contentores de lixo com cores diferentes, que possa adquirir víveres a preços que só podem ser conseguidos através da exploração dos trabalhadores rurais, que não sofra testes de matemática que levem a sua faculdade de raciocínio à exaustão, que tenha uma cama guardada por boas paredes e bom telhado, que tenha direito de propriedade sobre uma criatura consciente mesmo que para isto seja obrigado a satisfazer-se com aquelas de qualidade não humana, que possa exercer a função de treinador de futebol ainda que na distância que vai de uma bancada a um relvado, que possa prescindir da parentalidade para usufruir de um acréscimo de horas de trabalho, etc. etc.


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