8.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Não satisfeitos com a total liberdade de que desfrutam no país, tais indivíduos, ao verem que o tempo trabalha contra os seus interesses de politiqueiros ávidos de poder, transformaram-se, sem vergonha, nos principais fornecedores das oficinas reacionárias [8] que, em portugal e no estrangeiro, porfiam em lançar o descrédito sobre o nosso empreendimento patriótico a que deitámos ombros, desde o vinte e cinco de abril, para que cada português seja livre e feliz.



[8]

Qualquer moleque de ensino simples descobre pelas eurecas da própria mente que o pobre Newton tinha, apesar de toda a sageza por que é louvado, duas importantes limitações: o tempo e o tempo. Talvez resultado de uma pancada na cabeça, presumem os garotos, depois de ouvir que o pobre Newton fora em tempos atacado por maçãs imbuídas do espírito iconoclasta que de vez por vez se instala nas sociedades e, quem sabe, nas árvores. Mas a origem dos limites de Newton menos importava que a sua forma, visto ter ele vivido nesses momentos longínquos em que raras vezes se erigiam altares à originalidade (e de igual modo raras as piras que se lhe acendiam, pelo que o saldo pendia para o absoluto ausente) posto que as pessoas ainda não tinham perdido algumas das boas maneiras dos povos incivilizados, que é como quem diz, viviam em boa medida como os chimpanzés, em aldeias nas quais o murro e o pontapé aleijavam mais que a dívida e a quebra de vendas. Ora destas duas limitações de Newton, apontadas jocosamente pelos gaiatos que brincam pelo recreio, a primeira é o tempo, isto é, a altura, a era (que por palavras aptas que são para este serviço trazem também consigo o inconveniente da precisão, a primeira contaminando o pensamento com vertigens, a segunda com conjugação verbal) ou, como dizem os manuais, o século, e foi por essa limitação que o pobre Newton deu em publicar a sua física em cadernos de matemática, o que, nos dias que correm, valeria um chumbo à aluna mais afincada que uma professora pode ter, que é a Freitas, isso mesmo, a Freitas que é uma marrona e uma lambe-botas, perdão, lambebotas conforme manda o acordo dos ortógrafos. A segunda limitação importante de que sofria o pobre Newton apesar de ter uma incrível tola em cima dos ombros era o tempo, que é como quem diz a massa (que, sendo termo preciso e seguro, o pobre Newton confundiria com o peso), o pilim ou, como dizem os capitalistas, o investimento inicial, daí não ter sabido, como é elementar e óbvio para todos nós, aplicar patentes às suas leis, lucrando assim com a preguiça, a congregação ideológica (e avançam certos doutores que talvez até com direitos autorais sobre qualquer conversão religiosa), e com a indústria larga e pujante inventada a partir da sua terceira lei, para que o mundo não caísse aos tropeções só por causa de algo animado como o progresso. Apesar de o nosso país nunca se ter industrializado profusamente, ou seja, apesar de a indústria aqui nunca se ter enraizado a valer, em parte por causa dos efeitos nefastos do cultivo dos eucaliptos que parece ser um ópio irresistível entre os nossos detentores de terra, as oficinas da reacção podem, ainda assim, contar com o importante contributo que fazemos enquanto fornecedores de matéria-prima, isto é, matéria que seja filha de pelo menos um dos tios. Estes nossos empresários, os mais felizardos ou como se diz na terra os mais-cotados-em-bolsa, andam orgulhosos do seu desempenho e por isso se diz sem papas na língua que se tratam de uma cambada-de-desavergonhados, já que produzem tantos empregos, e ainda mais invejas segundo a minha avó.


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