7.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
É verdade que procedendo assim estou a singularizar-me, a destoar na pecha provinciana que leva certos políticos a exibirem publicamente as mazelas para suscitarem simpatias e apoios, e a confiarem mesmo aos mais diversos órgãos de informação estrangeiros os seus hipotéticos pavores, os seus medos apocalípticos e, de modo geral [7], por mais que os disfarcem em tiradas de fervor democrático, os seus ressentimentozinhos de ambiciosos frustrados... Enfim, essa gente é como é – e eu sou membro do movimento das forças armadas.
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... fazendo o que melhor faz o povo português sempre que urge a necessidade na circunstância desabastada, que é dar corpo e vida ao insulto que nestas terras é virtude, servir a vida como o autoclismo serve a retrete, isto é, desenmerdando. Desta como sempre assim o fez, em linhas grossas, tomando os jornalismos anglófono e francófono como uma espécie de consultórios de psicanálise improvisados, vomitando sobre os seus gravadores as ansiedades e os terrores para que estes escrevam umas frases nos seus cadernos e logo perguntem "e como se sente você com tudo isso?" remetendo-se de novo ao silêncio férreo com que se esconde o segredo de um rendimento. Os filhos mais privilegiados da nação dirão que se trata de uma perda de tempo, que o jornalismo é mau terapeuta, que uma grosseria grotesca grassa a casa em que o trauma é exposto tão publicamente, mas os demais fecharão os ouvidos a esses anjinhos dourados, porque sabem viver num país que sempre caça mas nem sempre com cão, que sempre almoça mas nem sempre lebre, que faz com a terapia o que faz com tudo o mais, pela virtude quando pode, e quando não, pela desmerda.