6.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Membro do diretório, não exporei o meu ponto de vista sobre o que se passa no seio das nossas forças armadas. Não o farei. Não o farei por razões de ética militar e dignidade. E sobretudo porque sou membro do movimento das forças armadas. E é como tal que aqui estou. Eu sou membro das forças armadas e essa tem sido a maior honra que eu tive na minha vida. Trata-se de uma questão de moral. É, portanto, uma questão de moral, já que, para mim, moral e política vão de par, não se podem dissociar[6]. 



[6]

Dão as mãos sem se largar. Embrulham-se para que a cara de uma se esconda no peito da outra. Juntas encaram e desfrutam a vida na sua completude, o calor amoroso do sol amolecendo o frio instalado num dia de inverno, a poça outonal que convida as galochas a chapinhar, uma senda de velas bruxuleantes que incitam à maravilhosa extinção sobre um bolo de aniversário. Dissociá-las é matar uma para deixar a outra morrer. Porque a primeira mais não é do que o sentimento de nobreza que se experimenta quando os intestinos se revoltam contra um som ou contra uma imagem, quando a bílis recheia o estômago ante um pensamento ou um testemunho, e o sentimento de alegria que eclode na cavidade pulmonar quando os olhos estão agradecidos pelo que veem, os ouvidos celebram o que ouviram, a alegria que eclode no tórax perante um pensamento ou testemunho. E a segunda, nada mais é que a utilização ponderada, calculada, premeditada, do elemento braçal, dos apêndices vivos do espírito humano, posta ao serviço da extinção daqueles pensamentos, daqueles testemunhos, os que se atrevem a revoltar os intestinos, a explodir a vesícula. Porque assim se dedicam ao mundo, em jeitos tão parciais e incompletos, e porque nem isso lhes revoga o desejo da universalidade, a inclinação para aquilo que é total, as duas faces fragmentárias aninham-se, protegendo as falhas de uma com a mão da outra, os tropeços da outra com a azia de uma, oferecendo deste modo um belo simulacro de integridade. Sim, um símile. A experiência social já não como fenómeno que emerge das borbulhas fedorentas do gás que anima os corpos orgânicos, além daquilo que podem promover as abelhas e as formigas, os pombos, os cães, os humanos inclusive, primatas que se confortam com simples companhia, um estômago cheio, o medo amainado, a experiência social além de tudo isso, aquela que é já artifício, aquela que é arte, a experiência social enquanto produto estético, os seus chiaroscuros produzidos nos sacos biliares da moral, os seus relevos delapidados pelo suor e pelo sangue dos anónimos que a política tão bem sabe comandar. Assim constituída pelo laço amoroso entre a moral e a política, a experiência social é objeto de apreço pelo seu valor estético e já não pelo que oferece às criaturas que socializam para fugir do frio e do escuro. É o mais elevado dos fetiches, o ópio mais alto. Mas sustenta-se numa fragilidade: dissociando-se a moral e a política, a violência que se abateu sobre a natureza para as produzir, essa artificial experiência social, destapa-se, fica refém da luz, batráquio a meros segundos de uma autópsia.


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