5.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Atravessa o nosso país uma crise grave – política, económica e social. Crise de autoridade [5] igualmente. 



[5]

Tinha-o descoberto da pior maneira: os olhos afetados por uma luz mortiça, quebrada, periclitante, e o rabo frio, oh, o rabo tão frio. Até àquele momento, ainda balançava entre o medo e a esperança, a possibilidade do cancro, a eventualidade de um intestino que quebrava perante um prato condimentado. Todas as ilusões se desfazem perante os factos – cria nisso com tão forte convicção que tudo fez para empurrar a prospeção da verdade: inventou horas extra no trabalho, amigos em apuros, até, veja-se, fazer companhia à avó nesse rito antiquado que era a missa. Adiara a ida ao hospital tanto quanto pudera. Se calhar podia até ter terminado tudo aquilo sem ajuda de ninguém. Um caldo de pó-p'ó-ratos, como se usava lá na terra. Mas a dor quebrou-lhe os planos. Quando as pontadas ilustraram a rudeza de um feto que reclama, armado, as condições a que está sujeito durante a gestação, deixou que o delírio e o pavor lhe encaminhassem as solas. Deu por si já em tratos, rodeado da mais genuína humanidade, um império de irmãos: eram homens, mulheres, eram jovens, velhos, vinham de todas as cores, com estes e aqueles membros, amariam quem quisessem amar, quem pudessem amar, e ali eram todos numa sinfonia de vida, ora cuspindo e escarrando, ora tossindo e espirrando, ora ganindo, ora sangrando. Perdeu a conta a quantos mais vinham, mas soube na cova dos dedos que pesavam mais no ar que os que iam; até chegar a vez em que pelo nome foi puxado. Coisa estranha, maldição encantada, essa coisa que é o nome. Uma coleira de ar, mas da qual é tão difícil liberar o pescoço. Pois já para lá, veio o despir, o furar, o deitar, o esperar. E aqui estava. Debaixo da luz partida, de fosforescência indecisa, com o frio a rebentar pelo rabo bem assente no metal luzidio da mesa, olhando o mesmo para que olhavam as criaturas de bata nas costas e máscara na cara. Recortando a luz, a radiografia mostrava o esconso de uma identidade, aquela parte que até os mais narcisistas ignoram, que nem os mais orgulhosos exibem. Um dedo carregado de estudos apontava, como quem dizia, é aqui. Deu-lhe vontade de perguntar o que é aí, mas a resposta veio sem necessidade de estímulo, correu numa dessas vozes habituada a distribuir sabedoria entre as mentes pouco ágeis, com ternura e firmeza. A autoridade tinha cedido. A esta crise sucederiam outras. Oh, sorte marreca. Antes tivesse sido o coração. Difícil? Sim, muito difícil. Mas um coração, apesar dos riscos, ainda se transplanta. A autoridade, já se sabe, traz consigo um corpo novo. De olhos ofendidos e nádegas geladas, soube que a solução era apenas morrer. Três quartos de hora mais tarde, abria a carteira na farmácia. Fechou os olhos e fez que não com a cabeça. Não. Não valia a pena estar agora a pensar no preço do pó-p'ó-ratos. Claro que seria menos custoso. Morrer é sempre menos custoso. Mas que integridade pode inchar o peito daqueles que, vendo uma autoridade em apuros, se recusam a sofrer com ela? Persistiu assim, durante mais um par de anos. No fim, foi com plena satisfação, um belo sorriso na fronte. Soube que tomara a decisão certa, já que em poucos meses teria atingido a idade da reforma, e fizera todos os descontos que precisava para uma velhice segura.


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