4.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Eu alinhavei, contudo, algumas palavras que, sob certos aspetos, considero muito importante focar agora. Isto não é um trabalho literário. Toda a gente sabe que eu não sou um literato, nem interessa que haja aqui literatos. O que interessa é que haja homens transparentes que digam a verdade ao povo na linguagem que ele entende [4].
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Aqui. Usando inteiramente a vista. Há alguém que possa dizer que não sabe o que está atrás de mim? Não. E porquê? Porque o podem ver. Quem me olha, vê ainda uma parede. Olha-me como se tivesse a substância material das palavras, uma existência que ocupa mais os ouvidos que a vista. E que ouve? Tudo quanto se pode definir como inteligível, perceptível, entendível, o linguajar de quem corre ruas e tabernas, de quem evade metáforas como o antílope as garras da leoa, de quem se escusa a adjetivos de imbricada e sofisticada sinuosidade, a quem despreza o estilo, ó, o estilo, coisa rotunda que rebola das palavras para o papel. Ouve, então, tudo quanto é de simples entendimento: – Caralho! Mais um copinho, ó chefe! Este tempo, ãh? 'Tou todo teso, 'tás a ver? Foda-se que nunca mais é sexta-feira! Isto o que é é uma gandamerda. Oh, s'eu tivesse um tusto por cada vez qu'essa treta acontece. Opa, nem vais acreditar nisto. Aquele ali é um filho da puta. Isso são só boatos. Estás a olhar para onde, seu palhaço? Faça lá aí um jeitinho, doutor. Você sabe quem eu sou? Vai já para ali de castigo e não quero ouvir nem um pio. Esqueci-me completamente.