3.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Mas eu contarei, em breve, ao povo português, para que saiba bem [3], para que seja bem lúcido, diversas e diversas peripécias por que passámos, nós os portugueses, a revolução, nas últimas semanas. Eu contarei isso em tempo oportuno, e em breve.
[3]
Começando, claro, pelo início. O Alfa, se assim mo permitem. O ovo. A origem, que no fundo mais não é que um verbo. Ah, e que verbo é! O principal, dir-se-ia, porque mais que todos os outros, fundamental. Contarei esse verbo original. Que é ele? Pois não se enganará quem soar confuso e disser ao camarada que tiver pela direita que não passa de um substantivo. Não. Nem se equivocará quem soar destrambelhado e murmurar para o camarada à sua esquerda que se trata de um quantificativo. Por sinal, para que o povo bem o saiba, para que o possa verdadeiramente apreender, contarei brevemente essa origem. E é esta, com toda a brevidade: Um. Estais estupefactos? Gozais? Dizeis que uma criança tola seria capaz de tanto, uma dessas crianças sem penas nas pernas que também possuem o dom de imitar Pollock e os seus? Se vos ris é porque a verdade vos encandeia até à cegueira. Decerto e apenas, como vos conto neste breve: Um. Parece simples? E, no entanto, não será a dose certa de severidade e segurança que faz dos grandes homens serem capazes de manter pelas suas próprias forças a disciplina que eram obrigados durante a infância? Mas contarei mais. Sim, porque por breve que seja o adorno sonoro com que os homens enchem as cavernas dos ouvidos, existe uma infinitude dentro do suave despertar de uma mente quieta. Contarei mais, portanto. Prestai atenção: Um, Dois. Ah, vejo que a contemplação vos baixa até às têmporas, que remata os rumores que escorriam das vossas bocas, se instala num canto da vossa vontade. Agora já dizeis a vós próprios que isto é algo com as cores da verosimilhança, uma linha que sois capazes de seguir, uma rua que já antes trilhastes de cor e também, quem sabe, de salteado. Imaginareis neste momento estar na posse da invencível premeditação, a que o destino é incapaz de corromper e deitar pelo chão. Dizeis a vós mesmos que o que advém é da vossa sabedoria e competência, que tendes a ciência própria e certa para encetar uma aventura tal. Comprovai, então, naquilo que brevemente contarei: Um, Dois, Três. Sim, descubro a felicidade estampada nas vossas caras, a alegria beatífica do pressentimento comprovado. Vós, que o mundo havia tratado como bestas, redescobri-vos afinal homens de valor, homens com cabeça, homens de vontade, em suma, descobris que a distância que vos separa dos que amarram os vossos dados aos seus desígnios pessoais nunca foi maior do que o palmo de uma mão enfezada. Como é belo, poder ver a humanidade descobrindo-se plena, sapiente, voluntária. Lembrai isto que vos contei, lembrai sempre, e tão bem sabereis.