2.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Porquê? Porque eu penso que a política deve ser feita defronte de vocês e não nas vossas costas[2].
[2]
A isto se chama inocência, sinceridade, abertura de espírito, imbecilidade. A política, sabe-se, singra com raízes mais fortes quando semeada nas costas dos olhares. Que povo, que animal feroz, sedento, é capaz de morder as canelas de um tronco cuja grossura já ultrapassou uma embocadura popular? Assim, a estratégia demanda cautela, sobriedade, silêncio, a gestão racional e deliberada do rumor e da fofoca. Desta forma se planta a boa política, a política sadia, a política consequente, a sobrevivente, a frutífera, no segredo da traição, dentro das sombras da noite, encaixada entre dois sussurros, para que só se possa ver quando já o seu pescoço dá temor aos inimigos – isto é, aos homens e às mulheres, às crianças e aos velhos, enfim aos animais que se digladiam contra as correntes da natureza e que por isso mesmo cospem, orgulhosos e terríficos, quando alguém lhes apresenta uma nova coleira seja ela qual for, mesmo a coleira limpa e reluzente em cuja chapinha se lê a palavra cidadão de um lado e liberdade do outro, mesmo quando as letras dessa chapinha dourada e vibrante são todas elas escritas em maiúscula, porque os animais que se rebelam contra as forças do cosmo têm a insolência de perguntar se tal é deveras, e se sendo tão verídico, indagam ainda como se escrevem maiúsculas nas letras dos chineses, e porque nenhuma resposta daí vem, troçam jocosos e danados, felizes porque estenderam a sua dor a quem lhes prometia afeição, arrastaram para o lodo em que enterram os joelhos as saias brancas que lhes ofereciam luzes e calores ternos, e exclamaram, como brutos que sovam um cadáver, que a força de uma promessa humana se mede na capacidade de a traduzir em qualquer linguajar. Pior que tudo isso, peidam-se, sem vergonha nem modéstia, arrotam e dizem que são capazes de amar e eis a única cela à qual se entregam, deliberados. Tudo isto é a gente humana, a raça dos símios depilados, o grosso da biosfera a quem os crentes chamam povo com belas caligrafias. Por isso mesmo, pensam os sábios que a política se deve fazer no espaço esconso que corresponde à cegueira desta gente. E só os estúpidos, os idiotas, os imbecis, parvos tolos atrasados mentais, se atrevem a crer que na frontalidade se podem fazer políticas que sobrevivam a um aborto clandestino. Esses tontos, é comum na história que cantem tais filosofias quando já avançaram no abismo e o abismo ainda não os sugou: deleita-se a saboreá-los entre as cáries.