excerto BH3.98.ZX2745
Excerto da intervenção do Dr. H.C.Silva, "O Passado Hoje", no III Colóquio de Decadência dos Povos do Norte Global”, aos 10 de junho de 213- desta era.
"Os povos que, como o nosso, procuraram cumprir o seu destino, encontraram sempre nele o seu fim. Já o dizia o nosso antepassado, que do cume da montanha etérea a que os antigos chamaram Liberdade, vaticinava aos seus compatriotas a vitória total, desde que encontrassem um resto de coragem para vencer o íngreme terreno que lhes faltava percorrer. Galvanizou-os, disso são provas os esqueletos amontoados que nos legaram, forjados nessa finalidade que heroicamente conquistaram. Devemos seguir o nosso propósito com um mérito igual? A maioria dos que afiam o gume da voz para com ela rasgar o vento afirmam que sim sem que o tremor os convide a sentar. Mas não será prudente indagar se o nosso glorioso antepassado atingiu com exatidão o desígnio que ambicionava? Porque nas suas palavras se encontram demasiados vestígios de esperança, o convite instala-se no espírito: pensava este herói encontrar uma vida após vencer? Imaginava ele que, resolvidos os dilemas e derrotados os inimigos, haveria ainda um lugar onde um velho se pudesse sentar, ser acarinhado pela brisa soalheira, enquanto o riso brincalhão das crianças apaziguaria as dores do seu corpo? Por vezes, parece existir uma sombra de utopia além do fim para que o bom herói se dirigiu. E se assim for, não podemos nós evitar o mesmo destino. Porque atrás das palavras santas dos que nos prometem chegar ao fim, sugere-se ainda hoje um qualquer episódio por contar. Também ele nos será negado. A tragédia dos nossos mais ferozes defensores, é terem uma imaginação que arde com tal fúria que quase queima como o fogo. Mais que o fogo, dizem. Estão errados. O fogo continuará a queimar mais que a sua convicção. E por mais intensidade que usem para intuir o futuro que está além das palavras que encerram todo o romance, O Fim permanece total. A ausência de páginas o demonstra com maior impiedade que qualquer fé é capaz de sentir. Se nos aproximamos do fim, o melhor que temos a fazer é dizer um último adeus ao por do sol. Quando ele regressar, já só cá estarão os outros, os que ainda acreditam estar no início."