excerto BSXXI.07.JOR.376a
Excerto de diário anónimo dos inícios do III Milénio, publicado no Catálogo da exposição “Fragmentos que o descuido poupou à bibliofobia”, apresentada no XV Congresso Peninsular de História Internacional de Bolonha, de 9 a 13 de junho de 217- da era comum.
“Se alguma vantagem se deve aos caminhos trilhados pelo espírito do racismo, é ter sido capaz de firmemente demonstrar o valor daquilo que o olho tantas vezes suspira para dentro da caixa craniana dos homens e das mulheres de todos os tempos e todos os lugares: que na cor de uma pele se encontra mais irmandade do que numa refeição partilhada, num poeta preferido, num estilo musical predileto, num desporto favorito, etc., etc. De facto, esta grave imbecilidade afeta os ânimos de todos os povos desde que é prática registar a sua aversão ao que determinam por diferente, ao ponto de não raras vezes se indignar alguém com a promessa de acasalamento de uma filha com um animal de pele diferente, quase sempre recorrendo a considerandos de preservação cultural, como se os genes, e não a educação, fossem determinantes na definição dos muitos caracteres que julgam importantes (religião, língua, moral, política, claque desportiva, etc. etc.). Ao fundir esta vocação idiota com as práticas excelentes da ciência, o racismo foi capaz de teorizar e experimentar de modo sistemático, descobrindo os limites superiores e inferiores de tal teoria, o higienismo e o eugenismo, respetivamente, desempenhando aquele que sempre fora o papel maior da ciência, derramar luz sobre as matérias. Escusado será dizer que de pouco valeram estes ensinamentos, sendo reduzido o número dos que optaram por abandonar o impulso orgânico da identificação pelos matizes dérmicos no momento em que deitaram na fogueira os manuais técnicos do racismo: a maioria, mesmo obrigada a reconhecer a obscenidade de tais princípios, recorreu a uma das duas mais antigas estratégias de conservação de grunhices perigosas, a platitude da Virtude Média. Em função disso, ainda hoje ocorre ouvirem-se os que se arrogam moralidade a partir da pele, que encontram inimigos a partir da pele, que se surpreendem quando vêm ofícios seus serem realizados por peles com tons diferentes, que consideram louvável que se evitem miscigenações para preservar a pureza de grupos demograficamente minoritários e por aí fora. Felizmente são em maior número os que depressa compreendem a evidente estupidez dessas armadilhas mentais, quando essas ideias derrapam no caminho embatendo contra uma realidade palpável. Infelizmente, estas ocupam demasiado do seu tempo a viver a vida, produzindo pouca literatura e ocupando quase nenhum espaço no ambiente sonoro. Além disso, nunca aconteceu estas abdicarem do seu tempo para ocuparem os espaços de poder.”