excerto 270.BB.25959

Excerto do livro de atas do Painel "Ética Higiénica das Sociedades Esclarecidas na Transição do I para o II Milénio da Era Cristã", no XV Congresso Peninsular de História Internacional de Bolonha, de 9 a 13 de junho de 217- da era comum. 

"O melhor que as sociedades souberam fazer, foi aliviar os seus povos do drama penoso do pensamento. Os princípios, esses são o território de pequenas elites, dotadas da mais profunda liberdade, a de pensar. Mas é uma liberdade custosa, causadora de ansiedades e insónias. Um sistema de recolha de lixo, o funcionamento das redes de transportes, o cultivo das searas... que perigo correm se os braços de que se fazem estiverem extenuados pelo pensar. Um leve aroma de decadência acompanha, por costume, essa liberdade de pensar. Os que o fazem enchem o ar á sua volta do mesmo perfume com que os nossos antepassados nos recebem, sobre as suas campas: escondem-se por detras do odor das flores para dissimular a perda de cheiro que a sua morte acarreta. Já os vivos, esses nunca tiveram precisão de se perfumar, o cheiro da vida escorre dos seus poros, provocando caretas desconfortáveis entre os pensam: o vampiro deseja o sangue tanto quanto lhe repugna o corpo em que ele corre. As sociedades, isentas do pensar, são mais vivas, reais, fazedoras. Que bom que assim é. Mas quem já viu a pessoa humana na sua infância, sabe não ser pouco, o risco de qualquer indivíduo se debruçar, sentando de cócoras, aninhando o queixo sobre os nós de uma mão dominante. 

Para que as sociedades não soçobrem, o princípio é tornado dogma. Um risco na paisagem torna desnecessária qualquer decisão. E a sociedade pode simplesmente viver. Não se perderá no labirinto das hesitações, arquitetura perversa do espírito cogitante. Se neste ou naquele caso não chegar, o dogma reforça-se com o tabu, a aversão que dispensa saber ou conhecer, a que basta imprimir na memória como a marca de um ferro incandescente."

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