excerto 270.BB.25977

Excerto de escritos do Professor E.F. Silva, anotados em guardanapos de papel, durante um almoço sem qualquer companhia, aos 28 de setembro de 217- da era comum. 

"Novamente a miséria cobre de pavor os exames gerais de história. Como sempre, sobejam culpas para os progenitores, os criadores, os educadores, os professores... Para todos exceto o real foco do problema: a infeliz transição do segundo para o terceiro milénios. Sabe-se que esse período esteve pejado de uma gente bárbara cujo mais significativo contributo foi a enorme jactância com que se nomeavam, em agrupamentos cada vez mais segmentados de escumalha indistinta e que embirra por essa indistinção. Não ocorreu, infelizmente, a nenhum dos nossos historiadores, ou educadores de história, nomear essa catrefada como os impérios se chamavam entre si. Nunca os magiares se confundiram por lhes chamarem húngaros, nem os nipónicos perguntavam extasiados quem são esses japoneses, menos ainda indagavam os portugueses acerca dos lusitanos de quem tanto falavam os seus escritores. Tal processo era ausente das mentes amolecidas da transição milenar, que julgavam ser licito em exclusivo o nome que um grupo se dá a si mesmo. Não é de estranhar que assim fosse. Mas porque será igualmente ausente das faculdades dos nossos pedagogos ao ensinarem dessa gente? Facto conhecido, embora de difícil memorização pelos nossos jovens - os exames assim demonstram - é que em poucas gerações foi registado uma equivalente incompetência no uso do auto-conhecimento, produzindo uma litania de nomenclatura grupal e atitudinal que, ao invés de pronunciar intentos, desejos ou comportamentos que possamos observar, se apelidam em função da sua leitura patologicamente afastada da realidade. Regras de ouro para entender quem são, dizem os nossos educadores, englobam estas: que um grupo que afirma a sua aliança a tal género humano na verdade ofusca o seu desprezo por outro não determinado na sua designação; que um movimento que afirma a prossecução de um objetivo específico dedica os seus maiores esforços a impedir que um outro objetivo singre; que quase todos os grupos se podem identificar pelo grupo humano ao qual nenhuma ofensa são capazes de tolerar. Esta lista continua, como todos saberão. Parece infindável, mas a isto chamam regras, quando todas parecem regimes de exceção. Se, como comunidade, decidirmos que não é interesse geral a continuada humilhação dos nossos jovens nos exames de história, por conta de um quase insignificante período de tempo, façamos esta exigência aos que constroem e ensinam a história: que se nomeiem estes factos sociais, não de acordo com a sua língua materna, mas de acordo com a nossa, como sempre fazem as gentes civilizados; chamemos-lhes, não pelo que viam em si, mas pelo que deixaram atrás."

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