excerto 270.BB.25973
Excerto de escritos do Professor E.F. Silva, anotados em guardanapos de papel, durante um almoço sem qualquer companhia, aos 12 de julho de 217- da era comum.
"Nunca gente alguma conheceu o peso, a estafa, chatice e aborrecimento que é uma revolução, melhor que a gente revolucionária. Todos os povos são icebergues, e no subterrâneo das gentes em revolução, há gigantes a clamar por paz, ordem, regularidade, o tipo de previsibilidade que agrada ao coração mas que arrepela a pele que logo o julga opressivo. Nunca gente alguma desejou mais a morte da revolução do que a gente revolucionária.
Que dizer, então, de um povo que aclama o espírito revolucionário por meio século sem pausas para respirar? Dizer, em primeiro lugar, o que sabemos de todos os povos. Todos os povos são icebergues. Esse povo que canta a revolução, que não tem cansaço dela, que não suspira pela ordem, por um minuto de silêncio, que tem ele no secreto do âmago? O que vive na sua profundidade? Eis que se encontram, no povo que adora a revolução: todos os matizes dos povos submetidos e pacificados. Uma gente que se prostra perante o que está instalado, que treme de terror à pequena sugestão de se moldar o que transpire odores de novidade. Povo cujo fogo interno arde e queima uma pata que se aproxime das inovações que já têm pó acumulado em todas as superfícies, e que arreganha os dentes a quaisquer antiguidades que tenham acabado de sair do forno.
Ah, belos são todos os povos na fronteira da água, onde o que deles é escondido toca no que deles é ostensivo. Que sublime é o pachorrento e cobarde povo que se veste de guerrilheiro. Que trágico que não possa ser assim estimado por si mesmo, mas apenas pelos que lhe visitam o mausoléu."