excerto BH3.98.ZX2740

Excerto da intervenção da Doutora A.C.Silva, " ", no III Colóquio de Decadência dos Povos do Norte Global”, aos 18 de agosto de 213- desta era. 

"Mas esse caminho de encontro ao orgulho absoluto não se poderia trilhar de forma simples. As sociedades cosmopolitas dos finais do século vinte estavam demasiado convencidas que tinham ultrapassado o estágio da barbárie. Havia, pois, que usar uma linguagem sofisticada, mais ciente das sensibilidades etiquetadas, para semear o gérmen do retorno ao tribalismo que é vocação dos povos sadios. Um dos instrumentos sabiamente encontrados para que os cultos pudessem desmamar os vícios da internacionalização e do universalismo foi o chamado património imaterial, conceito obnóxio utilizado nessa fase era que a tradição era tida por matéria indesejável. Lentamente, as populações foram capazes de se reencontrar, de descobrir o que as tornava únicas, o que as afastava das outras. Em algumas décadas, renasceram aqui e ali sob a forma de comunidades. E, devidamente guiadas, redescobriram o orgulho em sê-lo. E, inescapavelmente, redescobriram o horror de partilhar os seus traços fundacionais com os outros. Sim, até isso tiveram que readquirir. Estas gentes teriam - e não existe qualquer polémica ou divisão de opiniões sobre isso entre os que os estudaram - perdido em absoluto o sentimento de invasão que naturalmente ocorre quando o estrangeiro adopta os jeitos do nativo. Era um músculo atrofiado, cuja recuperação dispendeu muita energia. Claro que os investimentos foram justificadíssomos. Nenhum orçamento de estado chora ao contribuir para o reavivar de uma etnia que se orgulha de o ser. 

Os sinais de que as comunidades moribundas redespertavam notaram-se primeiro nas mesas: impensável aceitar o atrevimento de quem dissesse comer este queijo ou beber aquele vinho, se não fosse o suor de tal ou tal comunidade a produzi-lo. Não tardou que se espalhasse pelo restante da existência, visto sermos uma espécie que se conhece pelo que enfia na boca. Em breve ver-se-iam os netos dos camponeses, de mãos limpas de calos e costas invergadas pela dureza da lavoura, a cantarolar os cantares que alentaram as almas dos seus anteriores. E, claro, a reaprender a sentir a invasão quando as mãos calejadas e as corcundas nascidas do trabalho que deveria ser seu apareciam, ostensivamente, nos corpos de estrangeiros. Só lhes faltava, nesse momento, que os mais eruditos fossem capazes de dar voz aos seus anseios. Para alguns, a espera pareceu loga demais, embora seja notável como foi curta a duração da patologia universalista nos povos. Pareceu longa porque os primeiros eruditos a clamar pelas virtudes das comunidades apenas olhavam para as dos estrangeiros, apesar de tudo fazerem para o renascer das comunidades indígenas. A culpa que se lhes atribuiu é injusta. Foram eles que cuidadosamente plantaram o retorno da maravilha étnica. O não terem a capacidade de vencer o vício cosmopolita que lhes ditava estarem entre aqueles para quem o progresso é um caminho mais natural que a tradição: apenas torna mais dignos os seus esforços. Para quê exigir-se deles que fossem mestres de todas as artes? Além disso, outros houve que puderam dar seguimento aos seus esforços, outros mais livres desses venenos, de espírito pristinamente conservantista, entregues à missão de produzir nos países acima do equador, os factos sociais que tanta estima provocavam abaixo dele."

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