excerto 2/22/222.2222-(2)

Da aula de epistemologia da história de Z.M. Auel "Como a Ciência da História Pode Provar a Inteligência Humana Com Melhor Sucesso Que um Exame de Matemática", proferida sobre um banco de jardim em frente à saída geral do metropolitano pelas dezoito horas de uma tarde quente a 8 de novembro de 209-.


"Há momentos na história em que um estalo na cara aparenta ser mais verídico que uma palavra de amizade. Outros em que a injúria verbal é tida como tendo maior peso que um piano a cair do sétimo andar. Já se sabe que a vocação de cada um de nós irá determinar o valor que depositamos em um e outro aspetos. Aos historiadores a palavra será marca indubitável dos acontecimentos, o traço que denuncia o bailar da saga humana: confiam que os eventos sucedem a combinações de sons. Aos arqueólogos serão o capacete ferido pela bala, a biblioteca erguida, a habitação derrubada, o arco triunfal, a vala comum, quem fará testemunho credível dos acontecimentos. Impossível dizer se uns ou outros estarão corretos, se os que pretendem que a criança em birra é a genuína vítima dos progenitores, ou que o é deveras a criança com hematomas. Certo é que houve instantes desta epopeia em que as palavras e os atos dançaram conjuntos na produção dos eventos. Vejamos as décadas que sucederam ao derrube dos impérios ocidentais: primeiro, os impérios, em louvável consciência financeira, abriram mão da custosa tarefa de civilizar as suas colónias recentrando as economias no desenvolvimento das suas sociedades nortenhas; de seguida, produziram discursos infindáveis acerca da delícia moral que um povo pode provar quando é oprimido pelos seus vizinhos ao invés de um esclarecido invasor; entretanto, estes impérios guarneciam-se dos melhores recursos de todos esses locais de cujo custos sociais se tinham exonerado; num processo seguinte deram uso à palavra para estabelecer que embora uns fossem supremos os restantes estavam já na escalada para a supremacia, abolindo do léxico qualquer noção de subalternidade; enfim, deu-se que várias das sociedades frágeis, crendo nessa linguagem, empeçaram um jogo de forças com as que, tendo maior poderio, exclamavam compromissos pacifistas. É recorrente os nossos arqueólogos fazerem leituras enfabulatórias desse período tais como "os passarinhos esqueceram que a mandíbula do crocodilo é mais pesada do que são doces as suas canções" ou "sempre que o camponês procurou argumentar com o touro viu as intenções furadas". Mas não devemos ignorar as importantes lições que deste período tiram os nossos historiadores, quando dizem "li o que escreveram e li o que fizeram: algo deve estar em falta para que tudo isto faça sentido". Procuremos, então, esse diretor dos fósseis que será capaz de demonstrar a racionalidade que preside à grande narrativa da nossa espécie."

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