excerto 123.B4.0975

Excerto de artigo anónimo publicado n'O Diário da VII República" aos 30 de fevereiro de 223-, em direito de resposta ao artigo de opinião "A excelsa vocação do otimismo português" por X.A. Santos, de 29 de fevereiro de 223-.

"O português foi criatura genuína até à segunda metade do século vinte. Até então, predominava nele a qualidade animal, o espírito bestial que se encontra ainda hoje no cão e no elefante que, sentindo que os sinos estão prestes a narrar o seu fim, se isolam dos parentes para contemplar a finitude e o reencontro com o cosmos, porque sabem que o destino é um caminho que já está escrito, e que a vida é a arte de o saber ler calcorreando o chão com as patas, as palmas das patas, os olhos dos espíritos que se sabem cegos. No final desse século, o português, tragicamente, finou, a sua alma contaminada pelos vícios dos povos frios, os epi-siberianos e os supra-mexicanos, que lhe derrotaram a biologia fazendo-o crer na mais infantil das narrativas: o progresso. O português calçou as sapatilhas de sola de borracha e, deixando de ser capaz de conhecer o caminho, acreditou que os destinos são obra que se pode construir pela mão dos mesmos arquitetos e engenheiros que erguem centros comerciais."

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