excerto 123.B6.0375

Excerto de artigo de opinião "Quando dói a unha do dedo grande do pé" de O.Vinte publicado n'O Diário da VII República" aos 29 de fevereiro de 223-.

"É cada vez mais recorrente que se oiça o azedo queixume dos que se informam pelos poemas afetados de gravidade e deficitários na lírica: "vivemos como na torre de Babel". E nada pode fazer para evitar a surdez e a rouquidão que o instalam nos corações beatos. Urge reconhecer que esta é a decoração com que pintamos o nosso império, no século que os nossos precedentes profetizavam paradisíaco: a nossa linguagem veste-se de surdez, rouquidão e queixume. Este zaitegaicete impregna os tampos mesas dos cafés, a tinta das paredes dos restaurantes, as caleiras dos edifícios e o cesto do pão, e rouba-nos o gozo de um mundo em que ainda há quem saiba narrar o tempo que todos sentem, onde o tilintar do garfo caído é partilha comunal, no qual o murmúrio da chuva aprisionada que não desiste do reencontro com a água mãe, em que o olor quente da farinha cozida afasta todas as mazelas do corpo. Prevalece, acima de tudo, uma sensibilidade cuja personificação conhecemos do velho provérbio: se bebes chá com um chinês, não és melhor que ele. Muitos se deixam derrotar por tal turbilhão, arrastados por essas forças exógenas e passando a repeti-las convencidos que é mero acaso que a sua irrepetível individualidade seja o decalque limpo de uma imensidão e o negativo perfeito de outra tanta. 

O livro recentemente publicado pelo Centro de Estudos das Antiguidades Pré e Proto Imperiais, resultado de magnífico colóquio no qual se demonstrou a pura continuidade entre os nossos que são e os remotos antepassados que lembramos como sombras pouco distintivas, seja no plano das glórias, seja no das misérias, é um sadio remédio para os que enterram o bom senso debaixo de camadas de estupefacta histeria, e julgam que em tempo nenhum houvera equivalente falta de juízo. Atente-se o capítulo acerca do século vintum, quando as lideranças de Portugal ainda insistiam em respirar os ares polutos do porto de Lisboa, esse tempo em que as elites pareciam desconfiadas das suas heranças meridionais e julgavam estar mais próximas das repúblicas dos países frios do que dos sobas que se deleitam a torrar ao sol. É comprovado que também nesse período eclodia um fascínio por traçar riscos no chão, arrumando as gentes numa ou outra categoria, e decidindo delas toda a sorte de pensamentos antes mesmo que das suas gargantas soasse um só pio. Optava-se pelos dogmas que ululavam canções capazes de embalar os aspetos mais racionais da mente, permitindo assim julgar com severidade qualquer argumento sem ter o esforço de o entender, menos ainda o de o aprimorar. 

Caminhamos hoje o mesmo périplo que essa gente antiga, e embora pareça que o mundo que conhecemos deseje e entornar-se num precipício, é salutar reconhecer que, tal como qualquer outro tempo, também este passará a ser um ridículo parágrafo nos manuais de história, e todas as provações que nos excitam serão matéria esquecida por todos exceto um punhado de interessados em conhecer as imbecilidades dos seus anteriores."


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