O Sindicato do Norte
Fazia-se grande comoção no quentinho anfiteatro. Parte do barulho devia-se a queixumes pelo volume do ar condicionado, os que traziam os casacos da moda a preferirem ficar neles emplumados mesmo dentro de portas, esperando com isso um tsunami de elogios para os quais se haviam preparado, treinando a indiferença ao espelho. À medida que o tempo passava, lá se convenciam que ninguém iria introduzir na câmara o tremor frio, pelo que se descascavam em embrulhos de maldizer, e sentando-se mais frescos davam voz ao silêncio. E já não era sem tempo, uma vez que o velho coronel estava mesmo a chegar. Perto da porta, um dos gestores executivos contava os presentes usando-se dos dedos, que era um mau hábito que nunca conseguira curar, o dedinho subindo e descendo no ar, os olhos semicerrados e a ponta da língua de fora a partir do momento em que passara as quatro unidades. Seiscentos e vinte e sete, seiscentos e vinte e oito, Seiscentos e vinte e nove. Pronto. Estavam todos. Aliás, faltava um, mas esse era o vetusto orador que ele sabia estar a empiriquitar-se no camarote. Fez um sinal com a cabeça a um dos estagiários para que fosse buscar o conferencista.
Em poucos segundos ressurgiu o jovem, e logo
atrás dele uma figura toda mirrada pela experiência. Logo retornou a
barulheira, mas desta vez cheia de elogios, palavras amigas, agradecimentos,
ovações, gargalhadas, cumprimentos e canta rolices. A simples presença do
espectro despertava êxtase na audiência. E o furor continuou, como que fazendo
a musicalidade triunfal de uma carreira de vitórias, melodia amadora,
descompassada com os hesitantes andares do ancião, e crescendo até efervescer
num clímace quando este tomou o pódio, depois continuando, mais piedosa, para
lhe abafar os arquejamentos do pulmão cansado da viagem. Apenas quando o velho
pareceu restabelecido se começaram alguns a calar, e outros a incentivar os
camaradas ao silêncio.
– Vá lá, já chega!
– Opa, deixa ouvir!
– Chiu!
O velhote soltava dois pigarros para
desentupir o projetor, e começava o seu discurso:
– Amigos, primos, irmãos, vizinhos, muito
folgo em hoje vos ver aqui. Faz hoje mais um ano, mais um natal. Festejamos
esta data que era o nosso algoz, mas que com persistência e fervor soubemos
assassinar, castigar, mastigar, para depois como nossa a adotar, domar e agora
celebrar. A todos que aqui vejo, vos digo que estão de parabéns. Hoje é o
aniversário da nossa dor e do seu menor gémeo, o nosso triunfo. Libertámo-nos
neste dia, em que suplantámos o opressorento Nicolau, obrigando-o a fugir do
gelo que fora seu lar, obrigando-o a esconder-se numa estúpida reforma que ele
agora sofre, vivendo como um czar debochado na companhia da sua desavergonhada
amante.
– Viva, viva nós! – iam vivando uns a estas
palavras.
– Fora com o opressor! Fora com o gordo! – diziam
outros a quem o ódio ainda não tinha deixado.
– Chiu pá, deixa ouvir! – diziam outros ainda,
porque estavam a tirar notas e aquela conversa toda os baralhava.
– Mas enfim, não é para falar dele que aqui
viemos! Mesmo que saiba muito bem chamar parvo àquele gordo estúpido. Já
vivemos tempo demais como rodas sobre o seu eixo, é hora de sermos apenas por
nós. Mesmo que só apeteça dizer que ele foi um grandessíssimo anormal e um
parvalhão maldoso de todo o tamanho, que é um velhaco flatulento e preguiçoso,
que continua a ser um vaidoso e malcheiroso oportunista...
– Bis, bis – diziam três dos mais velhos.
– Vá lá, toca a andar – disse alguém mais
jovem, menos impregnado pelo mofo que se entranha sob a pele dos oprimidos.
– Camaradas, comparsas, companheiros,
celebramos novamente esse dia que ainda aquece as nossas memórias, fazendo-as
transbordar dos olhos em gotas de sal. Mas celebramos também e mais ainda as
conquistas que fizemos depois desse grande dia. Comemoramos a memória da mui
grande solidariedade que nos recheou os peitos, a copiosa generosidade que
estrangulou os nossos corações, a imensa felicidade que banhou as nossas
omoplatas, por ao decretarmos a nossa liberdade e pormos fim à opressão que
vivíamos, serrando os grilhões que nos amarravam às infortunas linhas de
produção em que fôramos instalados, termos fomentado o puríssimo florescer das
classes médias de tanto país ocidental. Folgamos e festejamos, que a nossa
renúncia a perpetuar os trabalhos que nos eram forçados e a continuar a bonita
missão (que era a única coisa decente que aquele gordo imbecil fazia) não só
não privou as inocentes crianças do mundo de presentes na cristã noite, como
regou e adubou o fortalecimento das teias económicas em tantos espaços onde é
religião o capital.
– Foi isso mesmo, pá! – acudiam sete elfos
dispersos.
– Viva a nossa bondade! – dizia uma boa parte,
satisfeita de si própria.
– Chiu! Deixa continuar – disse alguém irritado.
– Com ainda maior honra fazemos festa desse
glorioso empreendimento que desmoronou o inimigável edifício da moralidade,
deixando atrás de si um descampado familiar, porque ao libertarmos as nossas
mãos da cruel e repetitiva impiedade de reduzir matérias a brinquedos brindámos
por todo o mundo a agência de mães e de pais, e também os direitos das suas
crianças. Destampada pela nossa merecida folga, essa forte autonomia dos
progenitores permite-lhes desde então a liberdade de escolher brindar os filhos
nos seus termos, premiando os seus natais pelo amor que lhes têm, e não por merecimentos
que ganhem, que em confições normais seria muito pouco ou mesmo nada. São por isso nossa conquista,
esses jovens sorrisos que iluminam as casas familiares, nossa e das fartas
carteiras dos seus parentes cujo enriquecimento, já se disse, decorre da nossa
militante preguiça.
– Ganda velho, diz-lhes como é! – disse ainda
o orador com a mão em concha sobre a boca para pretender ser coisa de claque.
– As férias pelas crianças – dizia um par de
elfos que sempre se comovera com a importância da sua missão escrava.
– Pouco barulho! – diziam quarenta e três
elfos que ainda não tinham superado o ódio que lhes crescera às infâncias.
– Que mais se pode dizer? Que outras coisas
posso evidenciar, sobre a lustrosa marca que a nossa liberação deixou no mundo
humano? Que outras importantes vantagens foram escrupulosamente esculpidas por
inertes mãos, intangivelmente imaginadas por dormentes cérebros, virtualmente
visualizadas por cataráticos olhos, avassaladoramente avançadas por estáticas
pernas? Entre tantas que nem se podem contar, como as estrelas que deslizam
sobre o firmamento, talvez apontar aqueles que nos honram, impulsionados pelo
desejo de nos copiar, instalando-se horas infindas em tantas caixas de betão no
leste, replicando de olhos rasgados os nossos humildes gestos, fabricando
também os regalos da pequenada sob a sombra supervisora de um qualquer
explorador. Vivam esses nossos compatriotas esse sofrimento de que nos podemos
orgulhar.
– Vivam os desgraçados! – gritaram todos os
elfinhos em uníssono, exceto um, que achava de mau tom não estarem naquele dia
em solidariedade com o sofrimento dos atuais construtores de brinquedos.
E sem dizer mais nada, embalado em assobios e palmas, o velho elfo dirigiu-se a uma pequena mesa para iniciar a sua sessão de autógrafos.