Na piscina

Sabes quantos foram, perguntava uma delas, e respondia a outra que contara tantas quantas Uma porra nenhuma, e desatava a rir porque o sorriso era convulso e as roupas desabrigavam o corpo. Depois lançava-se na água sem grande perícia ao passo que a outra fingia tédio e arrumava a roupa despida como se a preparasse para a gaveta antes de se levantar e rodopiar no ar caindo no líquido como um golfinho. A consola comia o resto da bateria até bronzear o monitor fazendo o parvo acordar para a vida. Construía uma narrativa errada do que se passara ao ver as duas dentro de água e levantando-se em calções anunciava em boa voz, Vamos a isso! antes de dar três passos em corrida para ganhar ao corpo o balanço preciso para este quebrar os seus limites, convertendo-se numa bomba. Splash. Nem as sandes escaparam do banho com cheiro de cloro. Já nos estragaste o lanche, disse uma delas e ele não sabia qual que o ouvido ainda sentia sons impresentes, Como se fosses mesmo comer isso em vez de gelados, respondeu ele sem culpa na responsabilidade nem responsabilidade na cabeça.

Como um druida, o rapaz dos gelados socorria-se do apoio dos astros para derreter o produto. Tinha a certeza que duma venda portentosa receberia do patrão uma comissão tão igual quanto a de uma venda comezinha. E mais certeza tinha de que a jorna se despachava à velocidade em que o produto perdia solidez. Por sorte temperava agosto e havia falta de sombra. Mais uma horita e tornava à estranha garagem que fazia vezes de indústria do frio. O patrão, como os professores e os pais, tinham-no por desleixado, mas o rigor e brio com que se dedicava a boicotar a sua exploração demonstravam que se sabia acometer desde que a causa lhe parecesse justa e ética. Não que se importasse de vender aqueles pedaços de nata gelada a definhar aos burgueses que lhe apareciam pela frente. Passava sem cerimónias a riqueza destes para o seu explorador, como uma carteira humana. E como carteira humana recebia dele algum quinhão, uma parte para ajudar na renda, uma parte para ajudar nas contas de água, luz e gás, uma parte para a comida, outra para o passe de autocarro, e um restinho para um café ou um cigarro. Como carteira humana o seu devir era passear dinheiro de uns mestres para outros, nunca sendo realmente dono de quase nenhum.

Ai miúda não te mandes assim, cogitava a salvadora, Mandas-me à água e borro a pintura toda, dizia entredentes embora não se referisse a cosméticas mas à unha encravada do pé que ardia desconsoladamente sempre que provava cloro. Ansiosa pela sua salvação, tanto ou mais que pela dos clientes, panicava com atenção ao futuro, sempre que alguém com porte menos desportivo ou pendor menos sereno subia as escadas que ascendiam à prancha. Também quem raio se lembrou de uma coisa assim, perguntava ela ao ar tentando não se convencer que alguma vítima de um pirata se tenha divertido aquando de uma penalização. Improvável mas não impossível, calculava ela enquanto na cabeça listava comportamentos bizarros, Também há os masoquistas, os doidos que se autoflagelam e até gente rica que acha que se devem subir impostos, e com isto cristalizava na cabeça o divertido condenado a sobreviver a fúria dos corsários, chegando a terra e inventando um ócio novo.

Porque era pegajoso, tocar-lhe era o pior castigo que podiam fazer ao mano e à mana, e era castigo que a mãe lhes exigia sempre que ficava ao sol. Esse arrelio tinham que o sofrer para poder a seguir ir chapinhar enquanto a mãe ficava ali a fritar, besuntada naquelas gorduras nojentas. A mana, dois anos mais velha, já tinha aprendido a fazer aquele coice com a garganta assim que via o boião, que obrigava a mãe a dizer para ela parar de fazer fitas. O mano ainda não respondia com o corpo, o nojo dele mistura o desprazer que sentia na mão com o comportamento que copiava da mana, e à falta de náusea refilava com onomatopeias várias. A mãe estendida de costas para o céu, os dois se esforçavam por espalhar o creme gordurento o mais depressa possível para poderem ir limpar as mãos. Desejavam ir brincar, mas já eram crescidos o suficiente para saber que até a melhor brincadeira se pode estragar se estivermos com as mãos engosmadas de coisas horríveis.

Se isto continua assim ainda vamos à falência, considerava o patrão ao contar as entradas do dia, era uma matemática em regressão, a das gentes que se ocupavam nos dias de calor com lazeres pagos. Agora a maioria dispunha de carro podendo ir até uma praia para saciar a fome de ultravioletas e desocupação, Raios partam esta economia, rebentava o patrão ao recordar os bons dias em que o autocarro de uso semanal era a única opção daquela gente, Houve dias em que nem se via o verde da grama de tão cheio isto ficar. O contabilista não acreditava, Onde está a prova, perguntava na voz dentro da sua cabeça, que não via no edifício nem na piscina o resultado de qualquer investimento desde a sua construção, Que foi feito desse cofre recheado, mas sabia não fazer a pergunta nos altos da voz, estava ali para ser pago e não para ter o desgaste abandonado que sofria o tanque de água. Já sei! declarava o patrão com a energia que o caracterizava três minutos depois de tomar aquela bebida especial dele, Arranjemos quem passe música aqui, concluía com duas décadas de atraso, A música é que chama a juventude.

A rapariga olhava para o material fibroso que apanhara na rede. O sol desapareceria por detrás da silhueta do hotel e da escola secundária dentro de pouco mais de trinta minutos, mas tinha tempo para terminar o serviço até lá. Limpar o tanque do que nele se abandonava todos os dias era um trabalho ingrato, e talvez por isso fosse realizado apenas após o fecho da piscina: enquanto lá se mantivesse a clientela, haveria sempre a infeliz possibilidade de alguém dirigir uma palavra amável, um agradecimento, à rapariga da rede, o que certamente mudaria a natureza do seu trabalho. A rapariga despejava o novelo de fibra branca no balde, e depois retirava as luvas de silicone. Apetecia-lhe comer almôndegas.

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