Gilberta
– Realmente, em grupo é muito mais difícil para estas coisas.
Assim pensava Gilberta, quando se punha a
pensar na família social. Tinha crescido com a convicção que tudo era mais
simples em comunidade, que toda a situação era de maior gerência quando se
juntava o povo para a solver. O problema era como uma gota de ácido: quanto mais
gotas de água à sua volta, menor estrago podia fazer. O sacerdote sozinho
levava muita duração para construir o templo para a população, mas quando todo
o mundo arregaça a manga fica bem mais fácil. Uns ajudam com o corpo, outros
ajudam com a carteira, outros ainda ajudam claqueando, o que conta é ajudar e
assim sai mais depressa.
Se o inconveniente ficava amortecido na
diluição, o prazer parecia ficar mais potente nela, como se fosse uma magia
naturopática, tanto mais forte quanto mais rarefeita nos litros de líquido
inerte. Por isso quando o vizinho desejava festar, podia festar sozinho, mas aí
ficava parecendo louco, lunático como lobisomem raivado de solidão, ou podia
festejar com todo o povo e juntos brindavam a alegria, perfumando os passeios
que todo o ano tresandam a andança de casa ao trabalho e da volta cansada dele,
pintando de comunismo as fachadas da propriedade que todo o ano é privada e
solitária, enfeitando de boniteza os cantinhos que todo o dia são apenas de
utilidade. Assim também no desporto, convertendo o passatempo com que os
isolados indivíduos enfrentam o aborrecimento numa festa de competição,
inventando a solidariedade na equipa e a honra na briga com beleza que faz que
os outros que não jogam sintam borbulhar em si o orgulho de militar por essa
equipa ou pela outra.
Tudo parecia menos pior ou até mesmo melhor em
comunhão. A ajuda fazia sentir mais fácil o que para cada um pesava difícil.
Tudo quanto Gilberta conhecera nos primeiros trinta anos de vida cria essa
religião do povo. Daí que muito estranhasse descobrir que em certa coisa assim
não era.
Cinco anos antes tinha adotado o Gordo. Fora a
primeira adoção. Toda ela nova para ela. Adoção, assim parecia, era coisa que
se fazia em solidão, por isso não foi se aconselhar de antemão. Foi lá na loja
e procurou pelas gaiolas. Quando viu o Gordo gostou. Achou ele bonitinho, a
cauda torcidinha, o olhinho esverdeado, embrulhado num montão de pelinho suave.
Fazia um chiar que parecia de fome. Porque era. De comida e afeto. O Gordo tinha
todo o guloso que se pode ter. Nesse dia comprou o guloso. Custou pouco, que a
vida sempre sai barata quando tem preço. Levou o Gordo para casa e deixou ele
acamar. Tentou ensinar truque, mas não funcionou. Como castigo foi no doutor
para castrar, como se cheia de consentimento. O gato ficava fechado na casa,
esperando amor e comida todo o dia. Fazia assim de escravo inútil, capaz apenas
de distrair o tédio. Uma espécie de animada televisão capaz de sofrer tristeza,
abandono e solidão.
Levou algum tempo até Gilberta sentir mal de
tudo isso. Foi só quando viu num programa um raposo adotar um pato que percebeu
a adoção de animais diferentes ser coisa normal na natureza. Por seis dias não
falou noutro assunto, no sétimo dia descansou. Foi nesse descanso que as mãos
ficaram dormentes, os olhos húmidos, o ar pesado no pulmão, o coração apertado.
Era a culpa por ter sido dona do Gordo por tanto tempo. Fizera dele coisa em
vez de filhote. Até o canino matreiro fora mais bonzinho na sua amoralidade.
Gilberta chorou por ela e pelo Gordo, agarrou nele muito desagradado com o suor
dos olhos no pêlo, e pediu muito perdão. Pediu perdão por comprar, pediu perdão
por castrar, pediu perdão por prender. Então comprou muito livro, aconselhou
com muita gente. Queria saber como proceder melhor. Não era fácil. O mundo que
ela vivia era difícil para uma criança com o problema genético de não nascer
humana. Amor e a culpa teriam que bastar.
Dois anos depois adotou a Marta. Dessa vez fez
diferente. Tinha aprendido quanto podia, que era pouco mas melhor que nada.
Marta não fora comprada. Nem escolhida fora. Decidiu que os pais devem escolher
filhos como os filhos podem escolher pais. Foi só no orfanato e disse que
desejava cria. Não disse que tipo, altura, cor, largura, esperteza, velhice ou
clube de bola preferia. Nem quis saber se era abandonada ou removida, se os
progenitores sanguíneos respiravam no mundo ou davam comer aos bichos debaixo
dele. Disse apenas que tinha vaga na casa e no coração, o resto ficava escolha
do fado.
Assim veio a Marta, com esperteza para isentar
explicações que já ela sabia onde haviam os seus que eram biológicos e que
fazia ali com Gilberta, legalmente sua agora. E se deu bem com o Gordo não se
sabe mas não chamou ele de irmão nem Gilberta de mãe, fechou em um quarto que
mais tarde seria seu, para já era só quarto e o que queria era um pouco de
solidão. Após três dias sentou à mesa com ele. Em duas semanas tinha memorizado
a rotina como um autómato que esconde propósitos íntimos dos amos humanos. Gordo
aprendeu que Marta gostava dele em três meses, quando ela inventou de dar
abraço antes de sair e quando voltava. Gilberta aprendeu que Marta gostava dela
quando a desesperou de tal forma que tomou uns dias a perceber que era aquilo
prova de amor. Perguntara como estava ela a gostar de estar ali, e dissera
assim a menina:
– Acho que seria perfeito se a mãe e o pai
viessem viver para aquele quarto.
E apontava para o quarto ao lado do de
Gilberta, do lado oposto do corredor de onde ficava o quarto dela e onde se
instalara recentemente o novo domínio do Gordo.
Quando recuperou, Gilberta pensou no assunto,
e convidando os progenitores anatómicos a um lanche com a menina, jogou a ideia
neles também, a pequena rindo, o gato ronronando, os outros três querendo que
uma chamada de urgência atacasse os telefones pessoais. Uma semana ao teste,
duas se correr bem, nem duas horas passavam já Gilberta perdia a fé na força da
comunidade. Três dias tentou sempre em falha, aos outros não corria melhor.
Gilberta suspirou. Que custa tentar?