Campo de visão

De todos os lugares em que se poderia encontrar, foi nas traseiras da sétima escada que Pirilampo escolheu fazer o seu quartel de marotices. Dentro da sombra projetada pelos grossos edifícios, quase nem precisava de fechar os olhos para expandir os seus horizontes para lá de qualquer limite. Exceto, claro, o do imaginário, essa régua que a idade tende a diminuir. Pirilampo lembrava-se ainda da primeira vez que a vira, era tão majestosa e alta, parecia não ter fim. Do seu sopé, as nuvens e as estrelas surgiam mais definidas que a sua mais alta ponta. Agora era mais manejável, ou porque Pirilampo crescera e o obtido tamanho relativizava os volumes do mundo que habitava, ou porque aprendera já o suficiente de como as coisas são e ainda mais de como não são, excluindo do pensar alternativas que engordavam a bitola. Se olhasse para ela agora, Pirilampo veria que mal chegaria ao teto de um edifício de cinco andares. O que era bom, permitia ainda gozar de algum orgulho. Os mais maduros passeavam com as suas no bolso, de tão pequenas que já eram. A dele ainda necessitava ser guardada como um monumento, fora de qualquer privacidade.

O breu que criava era ainda incomensurável, embora já não tanto que não admitisse formas e uma ténue ideia de luminescência fora do negrume. Confortável o suficiente para a pessoa mediana nele se perder. As sombras projetadas do tríplice mural escoavam a semente de escuridão, e o imaginário fazia o resto. Estendia essa falsa noite por todo o chão, galgando as fachadas quando as encontrava, trepando as árvores, subindo as pernas dos animais, até tudo quanto se podia apelidar à superfície da terra se envolvia dessa falta de manto. Depois estendia um novo lençol, para que nenhuma luz chegasse de qualquer estrela, fosse nomeada ou numerada e ainda que fosse desconhecida. Ocultando também todos os astros que refletem essas luzes emitidas como os satélites e os planetas, e sejam os de nomes romanos ou outros quaisquer, tudo se oculta. E depois, com pequenos farrapos de escuro, embrulhar também as coisas que os humanos têm vindo a empurrar para fora do seu astro, as que o orbitam e as outras que o ultrapassam para migrar até outras bandas.

As silhuetas que a princípio se distinguiam verteram-se então numa sopa de nada, unindo cada um dos seus obscuros átomos numa mescla religiosa, um retorno à unidade dispensadora de binarismos, a anulação dos opostos e das dissemelhanças, o regresso ao cósmico ovo que precedeu o grande estalo inaugural. Tão bem que se está assim, pensaram neste mundo todas as pequeninas coisas que nesse escuro foram abarcadas, porque se deram contas de todas serem uma só, coisa que as agradou por ser novidade e já que boa parte dos algoritmos espirituais preditavam esse fenómeno. Um banho de ausência lavou a consciência que fora várias e tudo se calou, num silêncio tão bem feito que se diria ser matematicamente perfeito, perdurando tal estado por tanto tempo quanto dura tempo nenhum, que é como dizer muito rápido ou uma eternidade, tal é a essência do tempo em sono e também daquele que decorreu antes de nascermos, sempre muito longo e também nada aborrecido a passar, o tédio é coisa que só pesa na consciência.

Nessa altura uma linha muito alva se desenhou sobre o preto amplo, falhando a vocação de espartilhar, uma linha não parte o espaço, pois as coisas apenas se partem quando atacadas por figuras da sua dimensão, o ponto também não segmenta o plano. Deu essa linha a impressão de inventar horizontes para quem a olhasse de certa trigonometria, e quem olhasse de outra veria um singular foco de luz, simples ilusão óptica, e não aconteceu visto tudo isto ocorrer daquele ponto de vista que era o de Pirilampo, tudo está na sua mente, nada lhe é exterior. E a linha branca parece então separar um cima de um baixo, e sendo real ou não o facto é que assim se entende, a bom entendedor meia linha basta, temos céu e terra, já se praticou meio dia de trabalho celeste. E a meio da linha, flutuando um pouco acima desta, inventa-se um grosso número três, em números dos de tipo árabe que são algarismos indianos, muito branco e muito espesso, como se fosse feito de natas ou de mel, ou até mesmo de verniz, embora de nenhuma dessas coisas que foram sumidas ainda há pouco, quando se criava este cosmo.

Uma vez vira de cima para baixo, na outra de baixo acima, depois rodando os pontos cardinais e só então todos os outros, tanto malabarismo fez que, se nessa falta de mundo existisse, a sua testa suaria. De resultado ficou tal linha desprovida de início ou fim, gentilmente flutuando sobre arcos dois que foram um três, um balancé nu de movimento, brinquedo sem grave fruição. Um sorriso provaria o sucesso, embora a sua falta não o desprove, basta que diga que tudo corre pelo plano, e sendo isto psicológico quem o poderá desmentir? Pirilampo então sonhou correr a fundada amplidão, subjetivamente rindo de satisfeito, era de facto um recreio bem bom, assim sem limites nem coisa alguma, apenas aquilo ali, assim exposto, para dar ideia de que aquele amorfismo tem meio: aponte-se na direção da coisa branca, que cabeça poderá negar-lhe centralidade? Ideal espaço de brincar, o que evita barreiras mas oferece estranheza para aguçar a iniciativa. Pelo imenso se deixou voar, roubando ideias à memória com as quais poderia povoar aquele mundo nu, aqui seria deus ou coisa parecida, um arquiteto ou um geógrafo ou um arrumador de carros, alguém que fosse com boa capacidade para imaginar o potencial a explorar num terreno nu. Subiu à sua linha, de onde via tudo igual, embora um pouco mais alto, não muito, o que dava sensação igual, pois o infinito negro não muda muito de figura em função do andar pelo qual se olha: no espaço, seja cave, seja terraço, a vista é a mesma. Daí onde a linha alva se escondia nos pontos cegos do seu campo de visão, o mar de negrume era apenas cortado pela alternante luminância que lhe vinha de trás. Como todas as grandes mentes, também a de Pirilampo tremia perante a sua intestinalidade. 

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