Carontes
Pobre Maria das Dores. Tinha finado sem acabar de pagar as dívidas. Esperava que o bom deus fosse leniente com ela. Só as tinha contraído para pagar aquela operação ao pai que afinal de nada valeu. Mas fora essa a sua singular falha. Maria olhava à volta. Já não se conseguia ver. O corpo aparecera no canto da esguelha por breves instantes, lá para baixo, paradinho, enquanto ela se ia elevando. Levava apenas alguns instantes para a alma se habituar à falta de gravidade. Tão rápida era a separação, que quando aprendia a copiar o movimento dos astros permitindo a sincronia com a topografia terráquea já se estava tão longe do original que mais valia seguir em frente para o além sem um adeus final. Não obstante o planeta era cheio de alminhas penadas, que sem conseguirem ascender sem confirmar o cadáver da sua morte o vão procurando, ficando tanto mais tempo pelo chão quanto piores são a geografia. Maria das Dores flutuava no éter. Só parecia qualquer coisa que não era bem isso, era mais ...