Carontes
Pobre Maria das
Dores. Tinha finado sem acabar de pagar as dívidas. Esperava que o bom deus
fosse leniente com ela. Só as tinha contraído para pagar aquela operação ao pai
que afinal de nada valeu. Mas fora essa a sua singular falha. Maria olhava à
volta. Já não se conseguia ver. O corpo aparecera no canto da esguelha por
breves instantes, lá para baixo, paradinho, enquanto ela se ia elevando. Levava
apenas alguns instantes para a alma se habituar à falta de gravidade. Tão
rápida era a separação, que quando aprendia a copiar o movimento dos astros
permitindo a sincronia com a topografia terráquea já se estava tão longe do
original que mais valia seguir em frente para o além sem um adeus final. Não
obstante o planeta era cheio de alminhas penadas, que sem conseguirem ascender
sem confirmar o cadáver da sua morte o vão procurando, ficando tanto mais tempo
pelo chão quanto piores são a geografia.
Maria das Dores
flutuava no éter. Só parecia qualquer coisa que não era bem isso, era mais
assim, como dizer, diferente. Por aí. Imaginou se faria as vezes de estrada
para o salão onde se julgam as almas. Concebia uma espécie de tribunal, coisa
séria, americana, com advogado bom e mau, um deus muito sério a presidir, e um
júri de pessoas humanas a determinar o veredito. Em menina haviam-lhe ensinado
que era o divino que tomava as decisões, mas ela nunca acreditara. Achava que
sendo deus um tipo bonzinho, faria todo o sentido deixar essa decisão nas mãos
dos habitantes do céu. No fim de contas, eram eles que sofriam a eterna
companhia dos defuntos.
Agora
descobria-se enganada. As formas começavam a entrelaçar-se a partir dos
esfumados que a rodeavam, e ela via-se numa paisagem diabolicamente familiar.
Estava tudo molhado, húmido, cinzento, triste. Dava a impressão que de algum
lado vinha a luz do sol, mas podia vir de cima ou de baixo, não se percebia
bem, nem se poderia perceber. As neblinas pegajosas não permitiam que a luz
arrivasse, era o embate entre ambas a única fonte de cor que se sentia. Algures
o empapado lodo que executava o papel de solo submergia por debaixo de um curso
de muito líquida água discernível pelas algas e ramos, espumas químicas e
esgotos que transportava. Pareciam as cheias de inverno no Nabão. Na margem, ao
fundo, um vulto magro esculpia-se sobre a sombra de uma barcaça.
Maria havia
esperado um espetáculo colorido a celebrar a sua chegada. Em vez dele recheava
o cérebro com as histórias que aprendera sobre as viagens dos gregos pelo seu
rio fatal. Arrependeu-se de imediato em ter dado aquelas duas moedas
rechonchudas ao sobrinho. Devia era tê-las posto nos olhos. Tinha medo de ficar
apeada. Mas só não vai a Roma quem não tem boca. Com medrice, Maria das Dores
foi-se aproximando do vulto. Quanto mais se aproximava mais se convencia ser
apenas um enformado bocado de breu. A cada passo alimentava a esperança da
proximidade revelar alguma textura, algum volume, algo para lá do imenso
sombreado, descobrindo tratar-se apenas de puro breu. Só quando a separava do
vulto uma distância tão ínfima mas que seria sempre considerada perigosa pela
DGS é que o sol venceu as brumas do seu lado esquerdo, ou aliás, que estas se
abriram mecanicamente, banhando-os aos dois em luz.
– Zé Vasco? – perguntou
a confusa defunta.
– Mara das Dores!
Há quanto tempo! Como vai isso rapariga?
– Bem, Zé Vasco,
parece que morri – respondeu sentindo por si uma pena que lhe tinha escapado
até então.
O velho fez-lhe
sinal que entrasse na barca e ficou a olhar para ela enquanto ela
desajeitadamente se sentava. Depois olhou um pouco à volta como se esperasse
alguém.
– Zé Vasco, não
tenho moedas...
– Bem, não sou eu
que tas vou cobrar. Se quiser a propina, esse finório que volte ao trabalho.
Bem me aldrabou esse grego duma figa – o velho sentou com a menina que vira
nascer – Quando aqui cheguei a ele me dirigi. Achava que era assim que devia
ser feito, não é? Não é agradável essa coisa de morrer, mas não dando para
voltar atrás, mais vale seguir em frente. Ficar parado é que não, sobretudo com
este tempo miserável.
– Entra nos
ossos.
– Verdade, até nos
que não temos. Bem, vim falar com o maquinista aqui do bote. Pedir uma carona.
Ele disse que sim, mas que esperávamos ainda outro que vinha já aí. Depois lá
explicou como funciona o labor dele. Contou como arranjou o emprego com os
netos-bisnetos da tia-avó, como era importante o seu papel embora fosse pouco
reconhecido e como raras vezes o convidavam para as festas do pessoal de
serviço embora se saiba que sem um bom porteiro toda a experiência azeda logo à
partida e por aí fora. Tanta conversa me deu, que já eu ia bem embalado quando
o anormalzinho me passou a rasteira. Procurou se eu podia tomar conta aqui do
batel por uns minutos que ele tinha mesmo que ir à casa-de-banho, e eu feito
parvo esqueci que por cá não hão bexigas. Tenho estado aparvalhadamente aqui
desde então.
Maria das Dores
quase pousou a mão no ombro do velho, mas flinchou e arrependeu-se da
tentativa. Ainda não estava acostumada a não ter mão nem a ver ombros que não
eram. Optou por simpatizar na conversa.
– Que história
desagradável Zé Vasco. Pensei que na morte haveria menos trapaça. Sobretudo por
parte de funcionários públicos.
– É porque na
verdade não é desses. É daqueles cargos de nomeação, percebes?
– Ah! Já vi tudo.
Deve ter as costas largas esse parvalhão. E foi há muito isso?
– Nem sei. Essa
coisa do tempo é difícil aqui, sabes. Às vezes pergunto se tudo isto aconteceu
ou se é variação minha. Se não fui sempre esse desgraçado caronte e estou
apenas a alucinar na solidão. Mas depois lá aparece alguém como tu, que se
lembra que eu vivi, e então logo confirmo as minhas suspeitas. Talvez um dia me
esqueça de vez e ache que sempre o fui pela eternidade.
– Prometo que vou
interceder por ti quando chegar ao outro lado. Alguém tem que apanhar esse
malandro e pô-lo no seu lugar. Isto que te fez não é nada justo.
Nisto outro vulto
se aproximou. Durante bom tempo não se viu. Estava para além da bolsa de luz,
as feições apagadas pelos nevoeiros. Apenas quando se aproximou foi banhado de
iluminação.
– Quem vem lá,
hã? – perguntou o navegador, incapaz de discernir o rosto à sua frente, a
fronte encadeada pela fortíssima luz.
– Não sei se é
aqui… – volveu a figura incandescente. Não se conseguiam discernir.
– Tome um lugar –
disse o Zé Vasco – já vai sendo hora de seguir caminho.
Com uma paulada
na margem, o barqueiro deu início à travessia. O pequeno bote ia sacudindo a
tralha morta que morava no rio, seguindo um caminho sem possibilidades. À
frente seguia a Maria, corajosamente a enfrentar o breu com as pestanas
recurvadas para proteger a vista. O barqueiro mediava a composição, um remo em
cada mão, cada volta um tormento. Atrás dele seguia a figura dourada, o forte
feixe de luz perseguindo as suas formas, impedindo sobre ela qualquer
consideração.
Ao se aproximarem
de um cais, o barqueiro avisou:
– Você fica aqui.
É seguir depois a estrada.
Depois da
declaração demorou ainda um tempo a manobrar. Como se a doca rejeitasse alguma
da presença na embarcação. Como se algum magnetismo se revoltasse com parte do
seu conteúdo. Finalmente atracou de arrecuas. O barqueiro levantou-se e ajudou
o passageiro a sair sem tirar os pés das tábuas moribundas que flutuavam no
curso de água. Quando o outro já pisava o chão relvado com o verde da
esperança, o ser iluminado disse:
– Obrigado pela
passagem e boa viagem!
E seguiu caminho.
O barqueiro sentou-se e recomeçou a viagem. Maria das Dores tinha algumas
questões, mas esperou alguns silêncios antes de falar.
– Zé Vasco, onde
ficou aquele?
– Num lugar bom,
segundo se conta.
– Foi ele boa
gente?
– Isso não posso
saber. Fere-me a vista toda aquela luz. Não me permite ver quem nela vem.
– Então como
sabes que merece o lugar bom?
O barqueiro
matutou sem efeito. Deixou-se remar. Talvez do esforço viesse a resposta. Como
não veio replicou:
– Não sei se
merece. Apenas que não conseguindo apurar o que lá vem, resta presumir-lhe
inocência.
A mulher calou.
Tornou devante, esperando ver algo novo. A suave folha de tábuas cortava a paz
mastigadora do rio morto. Viajar tornara-se mais triste sem o calor da luz que
desaparecera. Aquele sol intimidante, opressivo, abrasador, fora apesar de tudo
companhia. Não da melhor, mas de algum tipo. Entretanto fora-se com o
desconhecido e ficara somente uma solidão a dois. Ou duas solidões.
Entrecortadas por uma solidão partilhada nas ocasiões que ocorria trocarem sons
entre si.
Lá ao fundo
lutava contra o cinzento húmido o recorte de outro cais. Avançava sobre a água
como bastião de um mundo sem alegria, onde a roupa nunca seca e até nas
crianças pega o reumatismo. O abeiramento dava a conhecer um bafo sem cheiro,
hálito inodoro, como o de uma carcaça tratada por um taxidermista.
– Sais aqui
menina – disse o remador. Maria das Dores fez do apelido uma máscara.
– Aqui? Tens a
certeza?
– Não vejo outro
caminho.
– Mas não fui boa,
eu? Terei sido merecedora deste lugar?
– Porque tiveste
as tuas falhas. Toda a gente as tem. E este é o sítio para onde vêm ser mortos.
A mulher via
tristeza, simpatia e amargura nos olhos do velho. Sabia que ele não lhe queria
mal. O castigo era também dele. Só lhe restava uma dúvida.
– Mas se todos
falhamos porque deixaste o outro lá atrás? Não teria ele falido alguma vez?
– Não posso saber.
Afinal, com toda aquela claridade, nem me atrevi a olhar para ele.
Maria das Dores
desembarcou e seguiu caminho. Várias vezes pensou em ir reportar o caronte para
libertar o velho Zé Vasco. De todas essas vezes, um sopro de rancor deixou-a
quieta no seu lugar.