42.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada

A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta, cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia, oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.

Pois bem, esses pasquins não estão interessados nisso. Estão interessados em isolar a classe trabalhadora. Não estão interessados no socialismo. E daí, vá de criar cunhas e brechas entre a classe trabalhadora e as outras camadas da população que devem ser suas aliadas e que devemos procurar que sejam suas aliadas. Onde estão as liberdades e garantias individuais fundamentais que nos propusemos restituir ao povo português? Onde estão a liberdade de associação, de reunião, quando permitimos que sedes [42] de partidos políticos, organizações cívicas sejam assaltadas impunemente, sem os autores desses crimes serem castigados?



[42]

No escuro de uma noite estrelada e fria, os vultos etéreos cantaram num uníssono desafinado: Permitimos que sedes. Assim foi. Desde que o sol tornou a raiar naquelas paisagens, as sedes dominam, bravas e fortes, tudo o que o olho alcança. Esta lei que os deuses antigos impuseram secou os caules e os troncos, requebrando os verdes vivos e elásticos das folhas, tornando-as coisas tristes, amarelas, inflexíveis de rancor, até se desfilarem em mil pedaços levados pelo vento. Perdidas as ervas, logo os animais. As aves foram as primeiras a fugir, procurando pastagens verdes com o seu olho do céu: não desejaram viver em planícies nem em vales onde a garupa de um ungulado já não fornece acesso gratuito a um repasto de insetos. Os répteis fugiram também, lembrados da vocação que os seus antepassados tiveram para ser ave. Mas não foram longe. Tendo escolhido a escama no lugar da pena, há muito que o sangue os tinha condenado a sofrer os infortúnios de um lugar. Procuraram então escavar, refugiando-se nos subterrâneos onde as leis dos deuses antigos, muitos ou únicos, sempre foram fracas. Os animais de pelo, esses tiveram a sorte das ervas e das árvores de copa frondosa. A seiva deixava de lhes fluir, e sem ela os seus corações descobriam que não só de sonhos e vontades se move uma criatura macia. Por último, um amarelo-dourado sem fim. Eram as areias, súbditos diletos das sedes, as rochas mais ocas de humidade. Caminhando sobre o compasso das sedes, esculpiam sobre o mundo os contornos dos dromedários, a memória das colinas, o dorso da marrã prestes a dar à luz. Escondendo da vista impiedosa dos deuses as provas de que um dia houvera cor por ali. Por todo o lado, as sedes vingaram, exceto nos redutos da resistência. Um oásis aqui, outro acoli. Suaves veios de humidade onde a erva ainda se pode banhar, um espique pode beber para que não lhe sequem as folhas, os passarinhos podem cantar e os ratos persistir ora roubando tocas aos lagartos, ora tendo as suas tocas roubadas por estes. Perante a injúria, os deuses repetem-se, insuflando de coragem os seus seguidores: Permitimos que sedes. Cantam, e as sedes anuem. Faremos macacos de duas patas capazes de transbordar o seco pelo mundo, respondem elas. E cumprem. 


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