1.ª Nota ao discurso de Vasco Gonçalves em Almada
A 18 de agosto de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves proferiu um
discurso em Almada. Quase cinquenta volvidos deste período, a leitura atenta,
cuidada e imparcial desse discurso, informada por tantas décadas de democracia,
oferece umas notas de leitura, que doravante de apresentam.
Companheiros. Começo por vos pedir desculpa de ter demorado tanto aqui a chegar. Contudo não me foi possível chegar mais cedo, porque eu estive de facto a trabalhar. Muita coisa teria para vos dizer e, em particular, toda esta rica experiência que eu ganhei nas últimas semanas [1], com as vicissitudes da constituição deste quinto governo provisório, análise da situação, etc..
[1]
... o carregamento de 16 615 hectolitros de vinho branco da região de Torres Vedras a 8 de agosto, com destino à Alemanha; o piquenique dos socialistas de Paredes a 10 de agosto, com apoio de bebidas e talvez sardinhas assadas para os participantes impossibilitados de levar a sua própria merenda; a regata comemorativa realizada pelo Clube Oriental de Lisboa no mesmo dia, com a comparência de 45 barcos nas águas do Tejo; a passagem d'“O Acidente” na rubrica “Antologia” da RTP a 11 de agosto, um programa cujo visionamento foi vivamente aconselhado pelo contributo que pode fornecer para que as estradas nacionais deixem de ser os cemitérios que são; o sorteio dos três campeonatos nacionais de futebol na sede da Federação Portuguesa desse desporto, na noite de 12 de agosto; a 13 de agosto o concerto da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional na Aula Magna da Reitoria, no Campo Grande, com as canções das Crianças Mortas, podendo ser vistas por apenas 10 escudos; o aniversário dos 85 anos do Coliseu dos Recreios, maior casa de espectáculos de Lisboa, e ainda o 1.º Festival de Música da Costa do Sol, realizado no Pavilhão de Congressos do Estoril a 14 de agosto, estreando em Portugal a flautista suíça Marianne Clément, da Orquestra de Câmara de Lausanne; o arranque, a 15 de agosto, do Grande Prémio Trinaranjus em ciclismo organizado pela Associação de Ciclismo do Sul, com quatro etapas em 296 quilómetros, começando na Venda do Pinheiro; nesse mesmo dia, a decepcionante abertura da caça às rolas e patos, fiscalizada por brigadas mistas da G.N.R. e da Comissão Venatória Nacional; a actuação dos forcados amadores de Vila Franca com toiros de Palhas e de João Branco Núncio na tarde de 16 de agosto, como parte das festas de Nossa Senhora da Salvação em Arruda dos Vinhos; o comunicado, a 17 de agosto, do Regimento de Caçadores 3 aos órgãos de Informação, na qual desmentiram notícias e frisaram que mantêm os efetivos em vigilância permanente e dispostos a impedir veleidades.